Georg Lukács – Para A Ontologia Do Ser Social II
Obra de síntese, Para A Ontologia Do Ser Social é a mais complexa sistematização filosófica de seu tempo.
Considerada o ápice intelectual do filósofo húngaro György Lukács, um dos maiores expoentes do pensamento humanista do século XX, a Ontologia (como se tornou conhecida), concebida no curso dos anos 1960, significa o salto da ontologia intuída à ontologia filosoficamente fundamentada nas categorias mais essenciais que regem a vida do ser social, bem como nas estruturas da vida cotidiana dos homens.
Com a publicação deste segundo volume de Para A Ontologia Do Ser Social, conclui-se o excepcional empreendimento intelectual de maturidade de György Lukács.
Depois de elaborar, no primeiro volume, a sua crítica lógico-ontológica ao neopositivismo, ao existencialismo e a Hartmann e Hegel, além de apresentar sua autêntica (re)descoberta da ontologia materialista de Marx, Lukács realizou uma decisiva inversão no processo de conhecimento, cuja regência deve ser encontrada na lógica fundante do objeto.
Em Para A Ontologia Do Ser Social II, a crítica ontológica se debruça para desvendar os complexos categoriais decisivos do ser social: o trabalho, a reprodução, o momento ideal (e a ideologia) e o estranhamento.
Sendo impossível desenhar aqui a riqueza e a complexidade desse movimento – verdadeiro marco na filosofia marxista do século XX –, basta indicar que Lukács foi o primeiro a recuperar a profunda dialética presente no trabalho humano, contra unilateralizações, dualismos e simplificações que banalizaram a temática por um longo período.
Pelo papel central na gênese do ser social, no seu ir-sendo e no vir-a-ser, Lukács pode, na primorosa linhagem aberta por Marx, mostrar que o trabalho, mesmo quando se conforma como um trabalho estranhado, não elimina definitivamente sua dimensão de atividade vital. Em termos marxianos, o trabalho abstrato subordina o trabalho concreto ao mesmo tempo que o preserva.
Assim, Lukács supera não só toda uma escola desconstrutora do trabalho – conhecida pelas teses do “fim do trabalho” – como também aqueles que, ao recusarem justamente as várias modalidades de alienação e estranhamento, fazem-no através do desencanto do trabalho, do advento do reino das melancolias e, last but not least, do sepultamento das potencialidades emancipadoras das forças sociais do trabalho.
Em sua Ontologia, Lukács foi, é preciso enfatizar, excepcionalmente único em seu labor intelectual. Em um patamar muito superior ao já belíssimo História e consciência de classe, o que parecia uno se torna múltiplo; o que se apresentava como estático se converte em movimento; o que carregava ainda alguma herança ideal típica passa a ser contraditório e dialético.
Mas, como não há trabalho sem reprodução da vida social, o passo seguinte dos complexos sociais do ser foi desvendar o tema da reprodução societal, sem o qual a socialidade humana estaria obstada.
A divisão social, a educação, a fala, a alimentação, a sexualidade e o direito, dentre tantos outros elementos vitais para a efetividade do ser social, são tratados aqui a partir de uma ontologia singularmente social e humana. Trabalho e reprodução tornam-se intrinsecamente interrelacionais, recusando-se qualquer dualismo.

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