O agrimensor K. chega a uma aldeia coberta de neve e procura abrigo num albergue perto da ponte. O ambiente sombrio e a recepção ambígua dão o tom do que será o romance. No dia seguinte o herói vê, no pico da colina gelada, o castelo: como um aviso sinistro, bandos de gralhas circulam em torno da torre.
O personagem, K., nunca conseguirá chegar até o alto, nem os donos do poder permitirão que o faça. Em vez disso, o suposto agrimensor — mesmo a esse respeito não há certeza — busca reivindicar seus direitos a um verdadeiro cortejo de burocratas maliciosos, que o atiram de um lado para outro com argumentos que desenham o labirinto intransponível em que se entrincheira a dominação.
O Castelo — Fausto do século XX consolidado como um dos pontos mais altos da ficção universal — mostra a extensão completa do termo kafkiano.
Já se disse que os homens suportam qualquer sofrimento, desde que saibam que terá fim; o efeito da tortura parece tanto maior, mais eficaz, quanto mais se convence o torturado de que aquele momento de dor não é apenas o presente, mas todo o futuro.
A literatura de Franz Kafka pode ser lida também assim: como representação desse estado mental em que um sofrimento desagrega a noção de tempo e põe em seu lugar uma duração — a de um presente contínuo gerado pela certeza de que a repetição indesejada instalou-se como lei impossível de burlar.
Na acepção mais corrente, kafkiano, para nós, tornou-se o enredo (literário ou não) que não acaba de oprimir; uma situação kafkiana é o que é, para sempre, e nenhuma pergunta sobre sua natureza parece atingi-la no centro.
Kafka morreu em 1924, um mês antes de completar 41 anos. Escreveu O Castelo em 1922, em cerca de seis meses. Não se sabe por quê, suspendeu a escrita no meio de uma frase: “Ela estendeu a K. a mão trêmula e o mandou sentar-se ao seu lado; falava com esforço, era preciso se esforçar para entendê-la, mas o que ela disse”.

   

 

 

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