O Dicionário etimológico de José Pedro Machado informa que a palavra aforismo deriva do grego e chegou à língua portuguesa através do latim tardio aphorismu, com o significado de “limitação, breve definição, sentença”. Acrescenta que, com o tempo (já está documentado no século 16), o termo passou a designar “uma sentença breve e indiscutível, que resume uma doutrina”.
Kafka recorreu ao aforismo em suas conversas (por exemplo, com o poeta Gustav Janouch, autor do livro Conversas com Kafka, de 1953) e no decorrer de sua carreira como escritor. Uma das principais coleções dessas “sentenças breves e indiscutíveis” foi publicada no pequeno livro póstumo Er [Ele], a partir das anotações dos diários que o escritor manteve de 1909 a 1923-24.
Do outono de 1917 até a primavera de 1918, o pensador de Praga, já muito doente, recebeu uma licença de saúde do trabalho de jurista e foi morar na propriedade de Zürau, dirigida por sua irmã predileta, Ottla. Foi no campo, com a “respiração diferente” e atento à gravidade da tuberculose pulmonar que deveria matá-lo (sua primeira hemoptise ocorreu em 1917), que ele se dedicou com afinco a esse tipo de escrita, que testemunha sua preocupação com a vida e a morte, lembrando pelo laconismo, ou então pela frase circunstanciada, o “protocolo kafkiano”, que coincide, em longa medida, com seu gosto pela narrativa breve (contos, novelas, parábolas), que vinca sua obra e, até certo ponto, supera, pela composição enxuta e muitas vezes rasante, os grandes romances do espólio.
Nesse período, Kafka absteve-se de escrever ficção, só voltando a ela bem mais tarde – o torso colossal de O castelo, por exemplo, foi redigido em seis meses em 1922, dois anos antes de sua morte.
O aspecto factual mais relevante dos 109 Aforismos reunidos, aqui publicados, é que eles resultaram de uma seleção feita pelo autor, depois de tê-los passado a limpo à mão, com a evidente intenção de dá-los a público. Tudo indica que não houve tempo hábil para tomar essa decisão. A discrição de Kafka chegava a esse ponto e de certo modo explica sua tentativa (felizmente fracassada) de mandar o amigo Max Brod destruir os escritos não publicados em vida.

Deixe uma resposta