Em O Banqueiro Anarquista, Pessoa une o lirismo à análise política – assim como Camus e Cioran fizeram com a filosofia – ao contar a história de um banqueiro, que explica a seu amigo porque, mesmo considerando seu emprego, é um anarquista.
A história segue no formato dos diálogos socráticos, onde o personagem secundário apenas faz perguntas e o principal explica suas perspectivas da forma mais racional possível.
Pessoa definia o anarquismo como um processo individual de libertação das “tiranias das ficções sociais”. Dessa forma, organizações que se dizem libertadoras do proletariado, para dar um exemplo, seguiriam sendo estruturas de poder, com hierarquia, com pessoas preocupadas com o meio para a igualdade pela perspectiva socialista – o poder ditatorial – do que com o fim – a igualdade em si.
Uma “ficção social” seria tudo que sobrepusesse à realidade natural – família, dinheiro, religião, Estado. Pessoa afirma que somos qualquer coisa – rico, protestante, marido – em virtude das ficções sociais. Além disso, ele complementa – através de seu banqueiro – que qualquer sistema que não seja o puro sistema anarquista é também uma ficção.
Não haveria sentido em tentar suplantar uma ficção por outra, ou, no caso da prática, não haveria sentido em tentar suplantar o capitalismo em socialismo.
É importante notar as contradições inerentes à argumentação do banqueiro: É um burguês, um detentor da capacidade de impor a força de sua ficção social – o dinheiro – e ainda assim consegue notar o exercício de poder do capital sobre o homem – tanto em seu processo de desigualdade social quanto no de subjetivação – e combatê-lo à sua forma. Como combater algo no qual estamos “mergulhados”, no caso do banqueiro, as relações do capital?
Nesse sentido Pessoa evoca uma perspectiva do anarquismo individualista: É preciso subjugar cada uma das ficções por si mesmo, diminuir ao máximo a influência delas à sua existência e às suas decisões e essa seria a única forma de implantar o anarquismo sem a criação de novos paradigmas restritivos à liberdade humana.
De fato, uma análise mais subjetiva da obra e de suas terminologias pode nos mostrar a contradição em termos de toda ideologia com sua prática, por melhor intencionada que seja.

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