De publicação póstuma, o Livro Do Desassossego é o texto de Fernando Pessoa que mais se presta ao debate acerca da correta apresentação dos trechos que o compõem.
Composto de centenas de fragmentos, dos quais Fernando Pessoa publicou apenas doze, o narrador principal (mas não exclusivo) das centenas de fragmentos que compõem este livro é o “semi-heterônimo” Bernardo Soares.
Ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, ele escreve sem encadeamento narrativo claro, sem fatos propriamente ditos e sem uma noção de tempo definida. Ainda assim, foi nesta obra que Fernando Pessoa mais se aproximou do gênero romance.
Os temas não deixam de ser adequados a um diário íntimo: a elucidação de estados psíquicos, a descrição das coisas, através dos efeitos que elas exercem sobre a mente, reflexões e devaneios sobre a paixão, a moral, o conhecimento. “Dono do mundo em mim, como de terras que não posso trazer comigo”, escreve o narrador. Seu tom é sempre o de uma intimidade que não encontrará nunca o ponto de repouso.
Dúvida e hesitação são os dois absurdos pilares mestres do mundo segundo Pessoa e do Livro Do Desassossego, que é seu microcosmo. Explicando o seu próprio mal e o do livro numa carta a Armando Cortes-Rodrigues datada de 19 de novembro de 1914, o jovem Pessoa diz: “O meu estado de espírito obriga-me agora a trabalhar bastante, sem querer, no Livro Do Desassossego. Mas tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos”.
E numa carta escrita um mês antes ao mesmo amigo, fala “de uma depressão profunda e calma”, que só lhe permitia escrever “pequenas coisas” e “quebrados e desconexos pedaços do Livro Do Desassossego”. A este respeito, o da fragmentação permanente, o autor e o seu Livro ficaram para sempre fiéis aos seus princípios.
Se Pessoa se dividiu em dezenas de personagens literários que se contradiziam uns aos outros, e mesmo a si próprios, o Livro Do Desassossego também foi um multiplicar-se constante, sendo muitos livros atribuídos a vários autores, todos eles incertos e vacilantes, como o fumo dos cigarros através do qual Pessoa, sentado num café ou à sua janela, olhava a vida que passa.

   

 

 

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