1984, do britânico George Orwell, lançado em 1949, foi leitura obrigatória para aqueles que, em meados do século XX, acreditavam que a literatura tem o poder de mudar o mundo. Naquela altura, o nome do autor, ou antes, o pseudônimo usado por Eric Arthur Blair (1903-1950), já era bastante conhecido entre seus conterrâneos, quer pela frequentação de outras modalidades discursivas, sobretudo em atividades jornalísticas, quer pela repercussão alcançada com a novela A Revolução dos bichos (1945). Em ambos os títulos ficcionais, a denúncia política e social é a tônica.
Algumas décadas depois, sob os ventos do estruturalismo e de outros formalismos, em alguns círculos leitores, as expressões literárias marcadas pelo engajamento caíram no ostracismo. Entretanto, há marcas que não desaparecem tão facilmente. Umberto Eco ensina que algumas obras não podem mais ser lidas pela primeira vez, tantas são as referências culturais que nos permitem reconhecê-las, mesmo não as tendo lido. Um ocidental inserido na cultura letrada dificilmente deixa de apreender o sentido presente na expressão grande irmão, mesmo que a leitura de Orwell não faça parte de seu repertório. É bem verdade que essa disseminação foi grandemente favorecida pela adaptação cinematográfica (1956), sobretudo em sua segunda versão (1984).
Pretende-se que, em tempos de globalização, faz pouco ou mesmo nenhum sentido apontar diferenças. Mas o empirismo nos diz, a todo momento, que a homogeneização é uma miragem. A produção, o papel e a difusão dos bens culturais apresentam variações no espaço e no tempo. Há uma coincidência, que pode ser mesmo coincidência, tantos são os acasos e azares editoriais, mas é possível que nem tudo seja acidental: O Reino deste mundo, de Alejo Carpentier – obra inaugural na América Latina no uso da ficção pela via do fantástico como denúncia dos diferentes totalitarismos que grassaram no continente no século XX – é lançada no mesmo ano do livro de Orwell.

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