Eric J. Hobsbawm – Sobre História

Os historiadores menos inclinados à filosofia quase não podem evitar reflexões gerais sobre sua matéria.
Mesmo quando podem, talvez não sejam incentivados nesse sentido, já que a procura para conferências e simpósios, que tende a aumentar à medida que o historiador envelhece, é mais facilmente atendida por abordagens gerais que por pesquisas concretas.
Em todo caso, o viés do interesse contemporâneo está voltado para questões conceituais e metodológicas da história. Teóricos de todos os tipos circulam ao redor dos tranquilos rebanhos de historiadores que se alimentam nas ricas pastagens de suas fontes primárias ou ruminam entre si suas publicações.
De vez em quando, até os menos combativos se sentem impelidos a enfrentar seus detratores. Não que os historiadores, entre os quais este autor se inclui, não sejam combativos, pelo menos quando tratam dos textos uns dos outros.
Algumas das controvérsias acadêmicas mais espetaculares foram travadas nos campos de batalha dos historiadores. Dessa forma, não é de admirar que alguém há cinquenta anos na atividade tenha produzido, ao longo do tempo, reflexões sobre sua matéria, agora reunidas nesta coleção de ensaios.
Por mais curtos e assistemáticos que possam ser — em muitos deles transparecem os limites do que pode ser dito em uma conferência de cinquenta minutos —, estes ensaios constituem, no entanto, uma tentativa de embate direto com um conjunto coerente de problemas. Esses problemas são de três tipos que se sobrepõem.
Em primeiro lugar, estou preocupado com os usos e abusos da história, tanto na sociedade quanto na política, e com a compreensão e, espero, transformação do mundo. Mais especificamente, discuto o valor da história para as outras disciplinas, especialmente na área das ciências sociais.
Nesse sentido, estes ensaios, se o leitor preferir, são anúncios para o meu negócio. Em segundo lugar, dizem respeito ao que tem acontecido entre os historiadores e outros pesquisadores acadêmicos do passado.
Incluem levantamentos e avaliações críticas de várias tendências e modas em história, além de intervenções em debates, como, por exemplo, sobre pós-modernismo e cliometria.
Em terceiro, dizem respeito a meu próprio tipo de história, ou seja, aos problemas centrais com que todo historiador sério deve se defrontar, à interpretação histórica que achei mais útil quando os enfrentei, e, também, à maneira pela qual a história que tenho escrito traz as marcas, antecedentes, convicções e experiência de vida de um homem de minha idade.

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