O pensamento político de Marx tem sido vítima de algumas ambiguidades que o atingem mais facilmente do que à economia marxista. A ruptura que esta representa em relação à economia política clássica não só foi expressamente analisada por Marx, como é o ponto de partida da distância que toda a teoria marxista se determina diante das outras teorias. Seu fulcro se constitui através da crítica e da incorporação dos elementos com que trabalhava a economia política, de forma que o caráter desse rompimento, e sua distância precisa, fazem parte praticamente indissolúvel do caminho que leva à compreensão do marxismo. E toda a obra teórica de Marx está penetrada por essas anotações: da Miséria da filosofia a O capital, de A ideologia alemã à Crítica da economia política; e nela caminham paralelamente o desvendamento do capital – objeto central do desenvolvimento do mundo moderno – e a crítica da economia política – formas de consciência insuficientes em relação a esse objeto.
Nessas obras, Marx aborda tanto o conceito geral do modo de produção como uma de suas formas particulares de ocorrência – o modo de produção capitalista –, isto é, conceitos teóricos que têm como um dos seus polos de referência obrigatória as concepções anteriores dentro da economia política. As passagens históricas introduzem-se a título de “exemplos” nessas obras, de “ilustrações”, e não com a responsabilidade de demonstração daqueles conceitos, ao passo que as referências a Ricardo, Say, Smith ou Proudhon são parte integrante dessas demonstrações, porque é a partir de tais descobertas que Marx se compromete a justificar teoricamente como e por que essas formulações pararam a meio caminho de sua compreensão científica. O tema da ruptura em relação à economia clássica surge, então, reiteradas vezes ao longo daquelas obras, diminuindo o espaço pelo qual poderiam retornar formas ideológicas de pensar essas relações.
As análises políticas de Marx visam imediatamente a outro nível de preocupação: estão voltadas para as formas de existência que os modos de produção adquirem em situações históricas. Seu objetivo é muito mais particular do que o conceito de modo de produção específico. Visam à ocorrência de uma conjunção concreta de modos de produção – sempre hierarquizados – em uma formação social determinada: França de 1848 a 1851 e França de 1871.

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