Elizete Amaral De Medeiros – Os Dizeres Do Silêncio: Apontamentos Culturais Sobre Literatura E Política
Buscando o diálogo com leitores interessados em escrutinar a máquina estatal em seu (mal) funcionamento, à luz de uma leitura cultural e política da sociedade (brasileira) a partir da literatura, Elizete Amaral de Medeiros proporciona ao leitor o ensaio, agora transformado em livro, Os Dizeres Do Silêncio.
Seu ponto de partida e de chegada é a categoria silêncio, recurso bastante utilizado na e pela estrutura romanesca construída por Dionísio Jacob para delatar os (des)mandos políticos nos modos de funcionamento de determinados setores que alimentam a máquina estatal, como repartições públicas, muitas vezes, inoperantes e de cujos serviços a população prescinde: funcionam apenas como lócus empregatício ou “cabides de emprego” para os “afilhados” dos “padrinhos políticos”: geralmente cabos eleitorais que recebem como paga pelo empenho em campanha eleitoral um cargo administrativo unicamente para receber salário sem prestação alguma de serviço público.
O que Elizete Amaral de Medeiros exibe para o leitor, nesse ensaio político e literário, são questões bastante atuais sobre nepotismo, abuso de poder, apadrinhamento político, cabos eleitorais, funcionários em cargos públicos à revelia de uma rígida fiscalização da máquina estatal, inoperância de agentes administrativos etc.
Esses elementos são analisados à luz do conceito operacionalizador do romance: o silêncio. Esta é a grande sacada da autora da obra: trazer à tona uma leitura de um romance construído na base da escrita do memorando, documento através do qual as repartições públicas, internamente, mantêm diálogos, enviam comandos.
É o documento oficial entre repartições públicas. A charada desmontada por Elizete Amaral de Medeiros consiste não naquilo que os chefes imediatos e superiores de repartições públicas dizem, mas, sobretudo, nos dizeres suspensos e semanticamente percebidos através dos muitos silêncios que preenchem as correspondências oficiais: os memorandos.
A busca da autora de Os dizeres do silêncio: apontamentos culturais sobre literatura e política é por mostrar como é possível entender o silêncio como linguagem, como um modo de expressão, sobretudo política, capaz de comunicar tanto quanto a linguagem verbal, a gestual, a musical e demais linguagens em seus códigos.
A obra não é um tratado ou arrazoado sobre os modos de manifestação do silêncio, mas uma aula de cidadania pelo desbravar a linguagem articulada e perceber nas pausas de discursos verbais a semântica dos silêncios deixados, das suspensões de pensamentos e ideias, das reticências marcadas e de como as pessoas se apropriam das lacunas verbais, enxergam nelas o silêncio que discursa para além do verbo.

 

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