As Aventuras Da Mercadoria: Com um discurso de grande profundidade, Jappe apresenta os fundamentos para uma crítica contemporânea ao neoliberalismo.
As Aventuras Da Mercadoria: Com um discurso de grande profundidade, Jappe apresenta os fundamentos para uma crítica contemporânea ao neoliberalismo.

Anselm Jappe – As Aventuras Da Mercadoria: Para Uma Nova Crítica Do Valor

Tornou-se banal dizer que o mundo não é uma mercadoria, que é imperativo repudiar a “mercantilização” da vida. No entanto, ninguém ousa abordar a questão central: de onde advém exatamente esta impostura, esta inversão da realidade geralmente atribuída ao dinheiro e ao consumo?

Marx respondeu a esta questão há mais de um século: os seres humanos fetichizam o “valor”, fabricam um conceito todo-poderoso, um novo deus que nada tem a ver com a realidade das suas vidas nem com as respectivas necessidades.

Filósofo, Anselm Jappe vai às fontes originais recuperar o projeto de Marx e de vários autores que a ele se referem. Analisa os fenômenos recentes da globalização, das crises monetárias e da bolsa, enfim, da decadência social.

Evidencia ainda os motivos por que nos tornámos afinal prisioneiros de falsos conceitos e por que somos continuamente alienados por esse soberano “valor mercantil”, pouco abalado pelo advento do capitalismo.

Com um discurso de grande profundidade, embora sempre acessível, Jappe apresenta os fundamentos para uma crítica contemporânea ao neoliberalismo.

Há alguns anos muita gente estava disposta a acreditar no “fim da história” e na vitória definitiva da economia de mercado e da democracia liberal. Considerava-se que a dissolução do império soviético era uma prova da inexistência de alternativa para o capitalismo ocidental.

Partidários e inimigos jurados do capitalismo estavam igualmente convencidos desse fato. E, segundo essa opinião dominante, a partir daí a discussão deveria girar apenas em torno de questões de pormenor acerca da gestão da realidade existente. Afinal, o que é uma “mercadoria”? Que significado tem o facto de uma sociedade se basear na mercadoria?

Basta colocar este gênero de perguntas para se perceber muito rapidamente que é inevitável voltar a pegar nas obras de Karl Marx.Precisamente a propósito da mercadoria podem ler-se nos textos de Marx considerações que não se encontram em mais lado nenhum.

Aprende-se em Marx que a mercadoria é a “célula germinal” de todas as sociedades modernas, mas que não representa contudo nada de “natural”. Que a mercadoria, em virtude da sua estrutura básica, torna
impossível a existência de sociedades conscientes.

Que a mercadoria conduz necessariamente os indivíduos a trabalharem cada vez mais, ao mesmo tempo que priva quase toda a gente de trabalho. Que a mercadoria contém uma dinâmica interna que só pode levar a uma crise final. Que ela dá lugar a um “fetichismo da mercadoria” que cria um mundo invertido em que tudo é o contrário de si mesmo.

De fato a “crítica da economia política” de Marx é toda ela uma análise da mercadoria e das suas consequências. Quem fizer o esforço de seguir os raciocínios do autor, que por vezes são efetivamente difíceis, encontrará uma quantidade de surpreendentes ideias capazes de iluminar a compreensão do trabalho, do dinheiro, do Estado, da comunidade humana ou da crise do capitalismo.

Trata-se, pois, de encarar a necessidade de uma crítica das categorias de base da modernização capitalista, e não apenas de uma critica da respectiva distribuição ou aplicação.

Porém, durante mais de um século, o pensamento de Marx serviu sobretudo como teoria da modernização, no intuito de fazer avançar essa mesma modernização.

Guiando-se por essa teoria, os partidos e os sindicatos operários contribuíram para integração da classe operária na sociedade capitalista, libertando assim a própria sociedade capitalista de muitos dos seus anacronismos e deficiências estruturais.

Na periferia capitalista, desde a Rússia à Etiópia, o pensamento de Marx serviu para justificar a “modernização tardia” ensaiada por esses países.

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