O trabalho de campo etnográfico está cheio de surpresas, inseguranças, angústias, decepções ou mal-entendidos que necessitam tanto de ferramentas teórico-metodológicas como de um bom jogo de cintura para ser driblados. Porém, quando lemos uma etnografia, o que os autores geralmente nos oferecem é um relato coerente, livre de obstáculos, no qual foi silenciada a maioria das circunstâncias práticas – e, muitas vezes, dificultosas – em que a pesquisa foi levada a cabo. Contudo, socializar as dificuldades e os ensinamentos de nosso trabalho de campo, compartilhar nosso diário de campo e descobri-lo como nossa principal fonte de pesquisa pode ajudar a outros investigadores a enfrentar o campo com melhores ferramentas.
Ao longo das páginas de Entre saias justas e jogos de cintura, cada uma das autoras vai revelando as “saias justas” que tiveram que sobrelevar durante seu trabalho de campo e os “jogos de cintura” que puseram em prática para eludir as dificuldades.
As compiladoras, Alinne Bonetti e Soraya Fleischer, nos propõem um percurso por doze artigos que desvelam as aventuras e desventuras das primeiras etapas da formação acadêmica de pós-graduação de doze mulheres antropólogas. A proposta é original; não somente por ser uma compilação que fala específica e exclusivamente de temas relacionados ao trabalho de campo em si, mas porque, além disso, trata de pesquisas realizadas por mulheres que estão em momentos iniciais de sua formação como antropólogas, o que permite vislumbrar como uma nova geração pensa, pratica e reinventa o clássico trabalho de campo. São doze artigos que lançam luz sobre a (invisibilizada) diferença entre ser homem ou mulher no campo, e que revelam como uma formação acadêmica que pode ser entendida como “eminentemente masculina” é ressignificada por corpos femininos no campo.
Entre saias justas não tenta ser um manual de “problemas e soluções”, mas sim retratar as vivências inesperadas que as pesquisas nos impõem e que nos levam a um processo constante de formulação de perguntas, nos ensinando que fazer etnografia é, principalmente, formular perguntas.
Desde a introdução, o livro já se revela inovador.

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