Michel Henry – As Ciências E A Ética

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As Ciências E A Ética – Vou procurar não tratar este imenso assunto mas submeter a debate uma tese que pode, numa primeira abordagem, parecer negativa, e que diz que ciência e ética constituem dois domínios profundamente diferentes.
Provavelmente nem sempre foi assim. Penso que o saber e a ação formaram uma unidade harmoniosa durante muito tempo, mas que essa unidade foi rompida na aurora da modernidade, no momento em que Galileu cumpre o ato proto-fundador da ciência moderna e de uma nova era da qual somos, conscientes ou não, herdeiros, na medida em que partilhamos largamente os seus credos.
Esse ato consistiu na prática de uma redução (à qual dei o nome de “redução galileana” cuja gênese é esta: o mundo em que vivemos e o qual se trata de compreender é constituído por corpos materiais extensos, situados uns ao lado dos outros, com formas e figuras determinadas. Ora, para além das propriedades que acabo de enunciar, acontece que esses corpos possuem igualmente outras tais como a cor, o odor, o sabor…
Dir-se-á que essas características são completamente inessenciais porque esses corpos materiais poderiam muito bem existir sem elas. Mas de onde podem provir essas propriedades contingentes, desinteressantes? Elas assentam no facto de sermos também organismos vivos, animais, e seriam diferentes, até mesmo inexistentes, se essa organização biológica não fosse o que é.
Por conseguinte se queremos verdadeiramente conhecer o mundo, teremos que dar conta dessas formas materiais e não ficarmos, como até então o fizera a Escolástica, nessas qualidades além do mais bem passageiras, totalmente variáveis de um para outro indivíduo, incapazes de fundar uma proposição científica universalmente válida. Apenas as propriedades dos corpos são necessárias e permitem superar o simples discurso do tipo: “acontece que fico triste quando o céu está encoberto…”
Porque enquanto precisamos apenas de um conhecimento subjetivo, isto é completamente incerto, para alcançarmos as qualidades sensíveis, para conhecermos as formas e as figuras dos corpos materiais, pelo contrário, dispomos de um conhecimento racional, rigoroso, que enuncia propriedades universais e, enquanto tais, científicas: a geometria.
Será preciso então pôr de parte os sentidos e o conhecimento sensível e aplicar a geometria ao conhecimento dos corpos materiais e, desse modo, será possível criar uma ciência. E foi com efeito o que se fez, alcançando os progressos que hoje conhecemos.

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