Cinzas Do Norte – O amazonense Milton Hatoum aprofunda o projeto narrativo de seus livros anteriores – Relato de um certo Oriente e Dois irmãos -, ampliando o foco além do mundo familiar para escrever a “história moral” de sua geração.
Cinzas Do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. Na Manaus dos anos 1950 e 1960, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, de apelido Lavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios mal-e-mal remediados, que cresce à sombra da família Mattoso; de outro, Raimundo Mattoso, ou Mundo, filho de Alícia, mãe jovem e mercurial, e do aristocrático Trajano.
No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. A fim de realizar suas inclinações artísticas, ou quem sabe para investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus.
Nessa luta que se transforma em fuga rebelde, o rapaz amplia o universo romanesco, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde manda sinais de vida para o amigo Lavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal.
Outros fios completam o tecido ficcional de Cinzas Do Norte: uma carta que o tio Ranulfo envia a Mundo, uma outra que este deixa como legado para o amigo de infância. São versões e revelações que se cruzam ou desencontram, sem jamais chegar a esgotar o enigma de uma vida singular ou a diminuir a dor da derrota final, às mãos da doença, da solidão e da violência.

Milton Hatoum nasceu em Manaus em 1952. Estudou arquitetura na USP e estreou na ficção com Relato de um certo Oriente, publicado em 1989 e vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance do ano. Seu segundo romance, Dois irmãos, de 2000, mereceu outro Jabuti e foi traduzido para doze idiomas e adaptado para a televisão, teatro e quadrinhos.
Com Cinzas Do Norte, de 2005, Hatoum ganhou os prêmios Jabuti, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Em 2006, lançou A cidade ilhada, uma reunião de contos breves. Em 2008, sua primeira novela, Órfãos do Eldorado, foi adaptada para o cinema, e em 2013 teve suas crônicas reunidas em Um solitário à espreita. É colunista dos jornais, O Estado de S. Paulo e O Globo. Em 2017, recebeu do governo francês o título de Officier de L’Ordre des Arts et des Lettres.

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