Edemilson Paraná – A Finança Digitalizada

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A Finança Digitalizada: Capitalismo Financeiro E Revolução Informacional – A relação entre progresso tecnológico e desenvolvimento capitalista é simbiótica. O exemplo paradigmático desse mutualismo é a revolução industrial de meados do século XVIII. Ensejada pelo avanço das próprias relações capitalistas, ela acabou por determinar a vitória dessa forma de organização social sobre todas as outras. No mesmo movimento forjou uma sorte de avanço técnico que faz avançar, e muito, a derrubada das barreiras materiais à realização do espírito humano, parametrizado pela lógica e pelos imperativos da acumulação de capital. Mas, tanto quanto a mercadoria, que é a célula mater desse sistema econômico, também esse avanço permanente da tecnologia vai parecer natural.
Explica-se assim, portanto, a constante celebração do virtuosismo tecnológico, como se ele fosse autônomo, neutro e linear, respondendo tão somente à fantástica capacidade de criação do homem. Não é este, no entanto, o caso de A Finança Digitalizada. Plenamente consciente de todas as questões que estão aí envolvidas, e fazendo disso princípio metodológico seguido à risca, Edemilson Paraná realiza, em chave materialista, uma perspicaz e bem fundamentada análise do papel das tecnologias de informação e comunicação (TICs) no aprofundamento e fortalecimento do processo de financeirização da economia mundial.
Percorrendo aquilo que ele vai chamar de “ciclo de operação da finança digitalizada”, nos introduz no mundo maravilhoso da formação de riqueza abstrata, alavancada por sofisticados modelos matemáticos, robôs automáticos e softwares de negociação que buscam ganhos financeiros inimagináveis, na casa dos milissegundos. Vultosos investimentos, na faixa das centenas de milhões de dólares, são feitos por empresas para ganhar 2 ou 3 milissegundos no intervalo entre uma ordem de negócio e sua realização (para se ter uma ideia, um piscar de olhos leva cerca de 400 milissegundos).
Com um apelo desse tamanho, nosso autor só se livra da tentação fetichista de considerar a financeirização como um resultado do desenvolvimento das TICs por conta de sua tenaz disciplina metodológica. O produto de sua análise é, por isso, formidável: ele mostra, embora não sejam essas suas palavras, que, assim como a maquinaria da revolução industrial tornou real a subordinação já formalmente existente da força de trabalho ao capital, o impetuoso desenvolvimento das TICs das últimas décadas, ao dar concretude à compressão do espaço-tempo que é da natureza do capital, tornou e vem tornando cada vez mais real a subordinação da lógica da acumulação produtiva à lógica da acumulação financeira, que a crise dos anos 1970 já tinha colocado em cena. Trata-se, por isso, de livro indispensável para quem quer compreender o capitalismo contemporâneo.

 

 

 

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