Joseph Brodsky – Sobre O Exílio

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Sobre O Exílio – O destino quis que Joseph Brodsky pronunciasse, a distância de poucos dias, no outono de 1987, os dois discursos aqui reunidos, que assumem um lugar simbólico na sua obra. Ambos são discursos sobre o exílio e do exílio. Mas aqui o exílio é uma categoria metafísica, antes de ser política. Isso permite a Brodsky evitar, desde o início, o risco mais atraente do exilado, aquele de colocar-se do “lado banal da virtude”. Para Brodsky a literatura não serve para salvar o mundo, mas é um “extraordinário acelerador da consciência”.

Enquanto estamos aqui reunidos, neste belo salão iluminado, nesta noite fria de dezembro, para debater o problema do escritor no exílio, paremos por um minuto para pensar naqueles que, muito naturalmente, não conseguiram estar aqui presentes. Imaginemos, por exemplo, os Gastarbeiters [trabalhadores convidados] turcos vagueando pelas ruas da Alemanha Ocidental, sem entender ou invejando a realidade a seu redor.
Ou imaginemos os refugiados vietnamitas nos botes enfrentando o alto-mar ou já assentados em algum lugar do interior australiano. Imaginemos os imigrantes mexicanos se arrastando pelas ravinas do sul da Califórnia, passando pela polícia de fronteira e entrando no território dos Estados Unidos.
Ou imaginemos os carregamentos de paquistaneses desembarcando em algum ponto do Kuwait ou da Arábia Saudita, ansiosos para trabalhar em serviços braçais que os locais, com a riqueza do petróleo, não aceitam fazer. Imaginemos as multidões de etíopes andando a pé pelo deserto até a Somália – ou é o contrário? – para fugir da fome.
Bom, podemos parar por aqui, porque já transcorreu o minuto que pedi à imaginação, embora essa lista ainda pudesse aumentar muito. Nunca ninguém contou essas pessoas e ninguém, inclusive as organizações de assistência da ONU, jamais as contará: são milhões, escapam à contagem e constituem o que é chamado – por falta de termo melhor ou de um maior grau de compaixão – de migração.
Seja qual for o nome mais adequado para tais pessoas, sejam quais forem seus motivos, suas origens e destinações, seja qual for o impacto sobre as sociedades que estão abandonando e sobre as sociedades a que se dirigem, uma coisa é absolutamente clara: eles tornam muito difícil falar com honestidade sobre as dificuldades do escritor no exílio.

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