Maria Isabel Barreno – Os Sensos Incomuns

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Publicado originalmente em 1993, Os Sensos Incomuns foi agraciado no ano da sua publicação com o Grande Prêmio do Conto Camilo Castelo Branco e Grande Prêmio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores, e, em 1994, com o Prémio P.E.N. Clube, na categoria de ficção.
Maria Isabel Barreno nasceu em Lisboa, a 10 de Julho de 1939. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial, foi jornalista e Conselheira Cultural para os Assuntos do Ensino na embaixada portuguesa em Paris (1997-2002).
Publicou um total de 24 obras, entre as quais dez romances e quatro livros de contos. Participou também em diversas antologias de contos e recebeu os prêmios Camilo Castelo Branco e do Pen Club Português para o livro de contos Os Sensos Incomuns, e o prêmio Fernando Namora para o romance Crônica do tempo.
Em 2009, publicou o seu último romance Vozes do Vento, sobre a história dos antepassados do seu pai em Cabo Verde. Publicou ainda ensaios de índole sociológica sobre a condição dos trabalhadores e, em especial, da mulher. Foi condecorada, pela Presidência da República, com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 2004. Faleceu a 3 de Setembro de 2016.

A Personagem
Começou a ler o livro num sábado de manhã. Um amigo seu tinha-lho recomendado. Belíssimo, dissera, há uma personagem feminina comovente, linda, tão misteriosa que é uma presença quase ténue, no livro, um fio de existência feito só de indícios, e de súbito reparamos que a personagem se instalou em nós, no coração, no ar que respiramos. Como se tivesse saltado das páginas do livro, literalmente, repetia o amigo, como se tivesse saído do livro e o seu destino viesse fundir-se ao nosso quotidiano.
Ele confiava na opinião daquele amigo. Gostava de passar os fins-de-semana de Inverno em casa, estirado no sofá da sala, lendo. Por isso sexta-feira à tarde foi comprar o livro antevendo com volúpia todo o desenrolar do processo: sair da livraria sentindo o livro nas mãos (era absolutamente impossível pedir emprestado um livro quando se tratava de saboreá-lo), desfazer o em brulho em casa, devagar, cheirar o livro (adorava o cheiro dos livros novos), mirar a capa dum lado e do outro, ler as badanas, deixar o livro pousado em cima da mesa da sala enquanto ia à cozinha preparar e comer o seu jantar (ele vivia sozinho); voltar à sala, olhar o livro de longe, aguçando o desejo; quase ceder à tentação de começar imediatamente a ler; resistir, aguçar ainda mais o desejo, decidir não, hoje à noite vou sair, amanhã sim. E o sábado chegou com uma cor amarela, cor da alegria, apesar de estar um dia chuvoso.

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