Dante Alighieri foi objeto de várias biografias ao longo das décadas seguintes à sua morte. Eduardo Henrik Aubert reúne e traduz pela primeira vez em português alguns desses testemunhos dos séculos XIV-XV sobre Dante.
O contato direto com esses relatos permite ao leitor situar, cruzar e comparar informações que em muitas biografias modernas do poeta nem sempre foram bem aproveitadas. Vidas de Dante permite ao leitor brasileiro bem compreender ao mesmo tempo a história das biografias do poeta e a história biográfica dele.
Esta coletânea de textos tem sua origem em uma pesquisa de iniciação científica desenvolvida entre 2001 e 2003, no Departamento de História da Universidade de São Paulo, sob a orientação do professor Hilário Franco Júnior.
Esse trabalho centrou-se, a princípio, na Comédia, e o estudo dos escritos biográficos reunidos neste volume apenas começou a se esboçar no fim do período mencionado, conforme se afirmava a perspectiva de que a Comédia não pode ser entendida isoladamente, como uma obra autossuficiente e autônoma.
A própria noção de “obra” é traiçoeira e dá margem a grande equívoco, ao menos por duas razões. Em primeiro lugar, ela confere uma estabilidade e uma fixidez ao texto que, de um lado, apaga a temporalidade da escrita, e, de outro, camufla o peso das leituras e releituras que continuam a recriar o texto no processo de recepção.
Em segundo lugar, a noção de “obra” remete a um produto realizado por um agente, estabelecendo assim um caminho de mão única, em que uma personalidade estabilizada e fixa – um indivíduo – produz uma obra, ela também estável e fechada. Parecia-nos necessário, assim, buscar caminhos analíticos que nos permitissem entrever os processos dinâmicos de estruturação da “obra” no tempo da vida de seu autor, vida que por sua vez foi em parte estruturada em torno de uma obra que, exatamente por essa razão, não deve ser compreendida como um conteúdo reificado, mas antes como um trabalho em movimento, como obra-fazer antes que como obra-coisa.
Nesse contexto, as “antigas biografias” de Dante – na verdade, um corpus extremamente rico, que abarca gêneros tão distintos como o epitáfio, a crônica, a novella, o comentário e a vita – afiguram-se como fontes privilegiadas, já que permitem “abrir” a obra e o autor, isto é, entendê-los na temporalidade de seu fazimento.
Fontes privilegiadas também porque essas narrativas da vida de Dante e de sua produção literária forneceram grande parte dos esquemas explicativos que o dantismo vem reproduzindo ao longo do tempo e que estão na base da compreensão e da crítica desse campo de estudos. Ao contribuírem para a abertura do texto, do autor e do próprio dantismo, as antigas biografias também se colocam, naturalmente, em posição de serem abertas, temporalizadas e entendidas como atos enunciativos particulares, revestidos de significação histórica própria.

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