Mia Couto – Terra Sonâmbula

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No Moçambique pós-independência, mergulhado na devastadora guerra civil que se estendeu por dez anos, o velho Tuahir e o menino Muidinga empreendem uma viagem recheada de fantasias míticas. Terra Sonâmbula — considerado pelo júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX — é um romance em abismo, escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa.
Mia Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula, que nos ensina que sonhar, mesmo nas condições mais adversas, é um elemento indispensável para se continuar vivendo.
Dois personagens sem história – um menino que não se lembra de seu passado e seu protetor, que somente em brincadeira aceita ser chamado de pai – vagam em território africano em busca de um lugar escondido, para não se tornarem alvo de bandos em guerra.
Em uma estrada erma e poeirenta, encontram um machimbombo, que no linguajar local quer dizer autocarro ou ônibus. O veículo, que está incendiado, vai lhes servir de abrigo. Entre os corpos carbonizados, o menino acha uma mala com cadernos manuscritos pelo garoto Kindzu, vítima das guerrilhas que assolam o país.
A partir daí, tem início Terra Sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto, que mescla histórias recheadas de motivos da cultura oral africana à guerra que apaga as identidades de cada um.
Terra Sonâmbula traz como pano de fundo a devastação de Moçambique por sucessivos confrontos. De 1965 a 1975, a batalha é contra o domínio português. Após a independência, em 1975, outro conflito se sucede. Disputas internas entre os partidos Renamo e Frelimo ocorrem de 1976 a 1992 e fazem vítimas indiscriminadamente. Terra Sonâmbula, que retrata o último período dessa guerra civil, foi publicado pela primeira vez em 1992, quando foi assinado o Acordo Geral de Paz entre os dois grupos, que hoje disputam pacificamente as eleições.
O menino Muidinga e o velho Tuahir encantam-se com a narrativa descrita pelos diários de Kindzu. Os cadernos ajudam a recuperar a humanidade que eles perderam. O “escritor” é o único a contar sua história familiar. Com uma mãe que leva diariamente comida para o fantasma do pai morto, Kindzu sai de casa para tentar se tornar um guerreiro local naparama.
Suas aventuras, seus amores e dilemas pessoais somam-se aos de personagens igualmente complexas, que aparecem e desaparecem, ora se apoiando em crenças, muitas vezes fantasiosas, ora se desprendendo da tradição para garantir a sobrevivência. Enquanto isso, Muidinga e Tuahir permanecem no machimbombo, observando a alternância da paisagem minimalista e inóspita em que apenas as hienas, comedoras de mortos putrefatos, se contentam, debochando da morte espalhada por toda a parte.

   

 

 

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