Walmir Ayala (Org.) – Fernando Pessoa: Cartas De Amor

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Quem buscar arroubos ou especiais conceitos afetivos, nestas curiosas cartas de amor de Fernando Pessoa dirigidas a Ophélia Queiroz, certamente se decepcionará.
Não resta dúvida de que esta relação, esta simpatia amorosa, serviu de veículo a mais uma faceta do plurivalente universo pessoano, já que se tratou de uma troca de declarações entre duas pessoas que se viam quase diariamente, o que tira o conteúdo lógico, ou objetivo, da natureza epistolar.
É certo que, entre os que se amam, estes recursos são comuns, uma espécie de detalhe a mais no complexo teor da envolvência amorosa, por si só contraditória, ou sem sentido, ou ridícula (como diria um dos heterônimos de Pessoa, o Álvaro de Campos, num famoso poema).
Mas o não ter sentido do amor é talvez sua maior glória, porque a partir disso é inesgotável. Fernando Pessoa é um criador obsessivo, nestas cartas há de ter tido uma intenção literária, e a pessoa de Ophélia teria sido um pretexto para determinada colocação de suas sensações e autoanálises.
Não diminuo com isto a presença da interlocutora, já que, desde que escolhida ela e não outra, estava imbuída de uma particular vibração, apta a contaminar o poeta, ou a provocar esta vontade expressiva capaz de iluminar algum escaninho de sua alma.
Debruçando-nos sobre o ensaio de David Mourão-Ferreira, colocado como posfácio da edição completa das referidas cartas, veremos uma das elucidações sobre estes inquietantes textos, apoiando-se principalmente na revelação do conflito entre Fernando Pessoa e Álvaro de Campos, no decurso de uma vivência afetiva que conceitua sobre o real.
Em muitos momentos destas cartas, realmente temos a intromissão de Álvaro de Campos, uma das pessoas de Pessoa, o que torna incômoda e por vezes impertinente a invasão, pelo teor geralmente mal-humorado e antissacramental com que projeta farpas no espaço do namoro.
Curioso anotar aqui a observação de Jorge de Sena sobre a relação Álvaro de Campos/Ophélia: “[…] e ela sabia que o Álvaro a detestava, sabendo nós que o mesmo Álvaro era quem Pessoa talhara para homossexual do grupo.” Teria sido esta inquietação homossexual, presente em muitos momentos da poesia pessoana, que teria consentido na inconveniente entrada de Álvaro de Campos, para o qual “todas as cartas de amor são ridículas”.

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