Feche os olhos e imagine um livro.
O livro imaginado é provavelmente o esperado: capa, páginas brancas com texto em preto e uma boa lombada. Possivelmente você o imagine aberto.
E se a primeira página desse livro fosse a última, com ele começando pelo fim? Uma página, digamos, -320? E depois uma -319, -318 e assim por diante? Isso nunca (ou quase nunca) acontece. Isso pode ser considerado uma violação tanto das práticas do bom senso (ou do consenso) como das normas escritas.
É uma violação da ordem. Um livro com o menor grau de violação já causa estranhamento, para qualquer público. Essa é a premissa do livro de artista contemporâneo, como o equilíbrio o foi dos seus antecessores.
Se você não fechou os olhos, realmente, depois de ler a primeira frase acima, então você está entorpecido pelos códigos de linguagem. Não é possível parar: você tem a compulsão pela leitura. Tentar não ler é quase como tentar não ver. Em vez de papel, você deveria folhear páginas de lixa.
Possuo um grande carinho por livros, como provavelmente também o tenha quem está pretendendo ler este trabalho. Mas confesso que esse carinho sempre foi mais voltado para o volume, propriamente dito, do que pelo texto que ele comporta (ou suporta).
O prazer da leitura é, para muitos, uma emoção que não consegue libertar-se do prazer de sentir o papel na mão ou o seu cheiro. Gosto de observar as ilustrações, de perceber a trama das retículas de impressão, de encontrar um desajuste nas cores: descobrir o magenta e o amarelo por detrás do vermelho. Gosto de contar os seus cadernos, ver como são costurados e quantas páginas há em cada um.
E gosto de suas marcas de tempo: as páginas amareladas, manchas de uso, anotações nas margens, os nomes em esferográfica de seus donos. Tudo evidenciando que um livro é um objeto. Ele não é a obra literária. A obra literária é de escritores, pesquisadores, publicadores. O livro é de artistas, artesãos, editores. É de conformadores.
O livro de artista é um produto da arte contemporânea, construído deliberadamente a partir de um suporte preexistente, o livro, que é o seu protótipo, e ao qual louva ou faz contraposição crítica.
A página e a estrutura podem ser enaltecidas ou sofrer todas as possibilidades de injúria e objeção, até alcançarem o estatuto da escultura e abandonarem a condição objetiva de livro. A página violada, de Paulo Silveira, propõe que as gradações percebidas não só podem como devem ser instrumentos da conceitualização e caracterização da obra e da categoria na qual ela se insere, desde certos exemplares do livro ilustrado até todo e qualquer livro-objeto.
São apresentadas cerca de duzentas obras através de mais de seiscentas imagens, que também incluem eventos e documentos, a maioria delas coloridas e originais para este trabalho.

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