Liudmila Petruchévskaia – Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar O Bebê Da Vizinha

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Nascida em Moscou em 1938, no seio de uma família de bolcheviques dissidentes, Petruchévskaia conheceu desde cedo as privações do período stalinista. Precisou se mudar algumas vezes na primeira infância, mas voltou definitivamente a Moscou aos nove anos.
Começou a escrever ficção aos 32 anos, publicando em revistas e em samizdat, publicações clandestinas, muitas vezes caseiras e até manuscritas, que circulavam driblando a censura.
Liudmila fez sucesso entre os leitores e chamou a atenção dos censores, que a perseguiram e a impediram de publicar. Dedicou-se então à dramaturgia, pois, segundo a própria autora, no teatro a reprimenda era mais branda.
Apesar disso, nunca deixou de escrever contos e novelas inspirados nas histórias que ouvia, nas conversas com amigos, e foi guardando tudo para um momento de liberdade.
Esse tão esperado momento só veio bem depois, com a glasnost e a perestroika, aberturas que possibilitaram a reabilitação de vários escritores até então proibidos, como a própria Petruchévskaia e o autor de Doutor Jivago, Boris Pasternak.
Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar O Bebê Da Vizinha reúne alguns desses contos, narrativas curtas, intensas e assustadoras. A mistura de elementos místicos e alegóricos a uma prosa refinada ilumina as condições sombrias da Rússia soviética e pós-soviética.
O ambiente claustrofóbico da floresta coberta de neve ou dos minúsculos apartamentos urbanos coletivos, divididos entre famílias e gatos, é povoado por órfãos, viúvas, pessoas de luto, inconformados, desajustados de todo tipo.
Observe os personagens de perto, sua complexidade: há perda, infelicidade, azar, falta de recursos, porém há também resiliência, total clareza diante da realidade social (“essas coisas acontecem: a pessoa desaparece”, já diria o narrador de “A sombra da vida” ao nos contar de uma garotinha cuja mãe sumiu).
E há, máxime, uma decisão por sobreviver e insistir, marca tão distintiva do caráter do povo russo. Existe certa força lá, algo único, como na personagem do conto “Tem alguém em casa”.
Nele, uma mulher cujo nome não sabemos mora sozinha numa grande cidade e decide colocar a casa abaixo ao desconfiar da existência de um poltergeist em seu apartamentinho, assustando sua gata Lialka. Não resta pedra sobre pedra: memórias da mãe, do trabalho, do ex, a televisão outrora tão amada.
Sobra essa mulher, a gata, uns discos, um armarinho cheio de livros que ela mesma não sabia que tinha. Sobram os próprios pensamentos: acabar logo com tudo ou recomeçar?

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