Em 2010, o filósofo francês Michel Onfray lançou na França o polêmico Le crépuscule d’une idole. Nas páginas, Freud é tratado como impostor, homofóbico, incestuoso e fascista. Pouco tempo depois a psicanalista Elisabeth Roudinesco lançou sua resposta, apontando erros de apuração, fatos forjados e acusações maliciosas como a de que o mestre da psicanálise teria mantido um caso com a cunhada por quarenta anos.
A autora ainda mostra como as acusações apresentadas contra Freud não são novas, são boatos antigos criados por quem buscava apenas atrair as atenções da mídia.

A história do ódio em relação a Freud é tão antiga quanto a da psicanálise. Ninguém toca impunemente no sexo, no segredo da intimidade, nos assuntos de família, na pulsão de morte e na barbárie dos regimes que escravizam mulheres, homossexuais, marginais e anormais sem pagar um preço por isso.
E é justamente essa a razão pela qual o sucesso obtido pela psicanálise no mundo traduziu-se por ataques incessantes: “ciência judaica” para os nazistas; “ciência burguesa” para os stalinistas; “ciência satânica” para os movimentos religiosos radicais; “ciência degenerada” para a extrema-direita francesa; “falsa ciência” para os cientistas; “ciência fascista” forjada por um vienense ganancioso e perverso para os adeptos da escola “revisionista” norte-americana. Essas ofensas nada têm a ver com a necessária crítica ao dogmatismo dos profissionais do inconsciente e seus grupelhos, ou mesmo à própria teoria freudiana, que em hipótese alguma deve ser vista como um corpus sagrado.
Mas o ódio em estado puro e sem nenhum outro fundamento senão a negação da realidade é coisa bem diferente. Convém lutar? Calar? A questão divide a comunidade científica, que muitas vezes se deixa seduzir pela fúria que suscita em seus detratores. Provavelmente porque seus representantes, imersos em trabalhos, colóquios e reuniões entre especialistas, tornaram-se, erradamente, indiferentes àquilo que veem, com desdém, como literatura de sarjeta.
De minha parte, sempre achei que jamais devemos silenciar quando o excesso de paixão e seu cortejo de danos ameaçam dificultar as condições do autêntico debate crítico. Ora, este é o caso, de uns vinte anos para cá, dessa série de panfletos estranhos escritos por autores cujos textos ressentidos não pertencem ao âmbito da tradição acadêmica e são incensados por uma mídia cada vez mais submissa à pressão do mercado.

   

 

 

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