Paris, fevereiro de 1903. Rainer Maria Rilke recebe uma carta de um jovem chamado Franz Kappus, que aspira tornar-se poeta e que pede conselhos ao já famoso escritor.
Tal missiva dá início a uma troca de correspondência na qual Rilke responde aos questionamentos do rapaz e, muito mais do que isso, expõe suas opiniões sobre o que considerava os aspectos verdadeiros da vida.
A criação artística, a necessidade de escrever, Deus, o sexo e o relacionamento entre os homens, o valor nulo da crítica e a solidão inelutável do ser humano: estas e outras questões são abordadas pelo maior poeta de língua alemã do século XX, em algumas das suas mais belas páginas de prosa.
Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta nascido em Praga, é um dos autores de língua alemã mais conhecidos no Brasil. Suas obras, que tiveram grande influência sobre mais de uma geração de poetas, vêm sendo publicadas há várias décadas e sempre despertaram muito interesse.
Existem, por exemplo, traduções excelentes de textos seus feitas por alguns dos maiores nomes da poesia brasileira, como a versão de Manuel Bandeira para “Torso arcaico de Apoio”, ou de Cecília Meireles para “A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke”, ou as várias versões feitas por Augusto de Campos, que em 1994 publicou uma coletânea de vinte poemas de Rilke e, em 2001, um novo livro no qual acrescentou mais quarenta poemas traduzidos.
Apesar da continuidade do interesse pelo autor, a recepção de Rilke no Brasil se caracteriza por uma duplicidade, que reflete a bifurcação dos caminhos tomados por sua própria poesia.
Por um lado, o poeta do inefável, das “legiões de anjos” aos quais se dirige a primeira das Elegias de Duíno; por outro lado, o poeta da precisão do olhar, que descreve a pantera ou a dançarina espanhola nos Novos poemas. No Brasil, foi o primeiro aspecto que suscitou a admiração inicial por Rilke, sobretudo entre os autores da chamada Geração de 45, desencadeando uma espécie de “rilkeanismo” em língua portuguesa.
Mas, contrariando essa recepção inicial e corrigindo o que ela tinha de tendenciosa, também os chamados poemas-coisas [Dinggedichte], reunidos sobretudo nas duas partes dos Novos poemas, passaram depois a merecer a devida atenção.
O elogio que João Cabral de Melo Neto faz a esse livro nos dois primeiros versos de “Rilke nos Novos poemas”, publicado em Museu de tudo, resume a questão: “Preferir a pantera ao anjo, / Condensar o vago em preciso…” E, posteriormente, a coletânea feita por Augusto de Campos, na qual está incluído o poema “A pantera” mencionado por Cabral, testemunha essa mudança de foco na recepção, que abrange assim os caminhos diversos trilhados pelo autor de Sonetos a Orfeu.

   

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