Ao contrário do que em geral se acredita, a fazenda demonstra que o mundo suporta contradições até com certo conforto. Na verdade, o mundo suporta a contradição por longos períodos de tempo e mesmo enquanto ela ainda não se resolveu.
Isso significa, no mínimo, que há algo de inadequado na maneira como temos pensado a realidade que nos cerca, pois consideramos as contradições como inaceitáveis.
Ou, em outros termos, que não temos realizado de forma apropriada aquela função específica da filosofia de pensar o nosso mundo. Por esse motivo, a fazenda pode se tornar uma figura muito elucidativa acerca do pensamento filosófico e do Brasil.

Uma conversa entre amigos, a qual giraria em torno da busca pela sabedoria, pelo saber. Tal deliberação poderíamos chamar de filosofia, que tem na conversação de Sócrates, que Platão grafou, seu momento inaugural.
A filosofia, por certo não é um “papo de botequim”, onde amigos conversam sobre futebol, sexo, política, economia, a sogra, as dívidas, despretensiosamente.
Contudo, também não é uma seita secreta, cujos falantes usam uma língua quase inumana, tratando de temas esotéricos e herméticos, que pouco ou nada diria sobre as coisas mais cotidianas. Ser amigo do saber e estar entre amigos que se voltam à busca da sabedoria, por meio de conversações que partilham uma visada específica, mas que manifestam inquietações comuns a maioria de nós.
Heidegger, o filósofo alemão, dirá que Sócrates inaugurou a filosofia com uma pergunta: Ti estin…?, que podemos traduzir como, “o que é isto…?”. Ao apresentar esta pergunta, simples, Sócrates não
pretendia uma resposta conclusiva, definitiva, mas colocar em movimento um interesse.
Embora as respostas possam estar circunscritas àquele grupo de homens que conversavam, a pergunta resistiria ao tempo, e ainda hoje podemos atualizar a mesma questão: “o que é isto…?”. Olhar para traz, ouvir aquelas conversas, os interesses, as questões, as buscas e as proposições precárias, e por vezes envelhecidas, permite-nos uma aproximação aos problemas que nos são interessantes.
Anterior, no entanto, à esta questão socrática, “o que é isto…?”, está o espaço que habitamos: a terra, o lugar onde colocamos nossos pés, por onde caminhamos.

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