Quais os fundamentos da clínica psicanalítica? O que separa a Psicanálise de outras práticas de cuidado, como o tratamento medicinal, as diversas psicoterapias ou as curas religiosas?
A resposta mais direta a essas questões não se esgota em aspectos teóricos; ao contrário, remete-nos ao domínio da prática analítica, relativo ao método e à técnica, assim como à dimensão ética que dali se depreende.
Os textos aqui reunidos constituem o essencial dos escritos freudianos sobre o método e a técnica, em sua constituição, em sua história e em seus desdobramentos.
Nos quase 50 anos de reflexão sobre a clínica que este volume recobre, Freud abordou temáticas que vão desde a associação livre e a atenção equiflutuante, a transferência e a repetição até a formação do analista, o início e o final de uma análise, passando ainda pela interpretação e pelas construções, entre tantas outras.
Contudo, descontada a notável série de artigos técnicos escritos logo antes da deflagração da Primeira Grande Guerra, entre 1911 e 1914, mais tarde reunida pelo próprio autor em uma coletânea intitulada Sobre a técnica da psicanálise, Freud não dedicou nenhuma monografia ou trabalho de maior extensão exclusivamente à exposição sistemática do conjunto da técnica psicanalítica, embora tenha anunciado, em mais de uma ocasião, a pretensão de fazê-lo.
Com efeito, uma arqueologia completa da técnica freudiana exigiria a reconstrução das diversas amostras de trabalho espalhadas ao longo principalmente dos casos clínicos, que funcionam como lições de técnica analítica, mas também das análises de sonhos e de outros fenômenos psíquicos. Isso porque questões de ordem técnica dificilmente podem ser separadas do material ao qual estão relacionadas.
Não obstante, ao longo de sua extensa obra, alguns artigos, em geral não muito extensos, foram dedicados, direta ou indiretamente, a questões de natureza técnica. É esse conjunto de textos que o leitor tem em mãos. Talvez possa parecer estranho que Freud tenha dedicado um número relativamente pequeno de artigos à apresentação de sua técnica.
Curioso, já que ele próprio afirma que as maiores dificuldades no aprendizado da Psicanálise são sobretudo de ordem técnica, e não teórica. Aparentemente, o autor percebia não apenas a dificuldade do manejo da técnica analítica, mas também o quanto era especialmente difícil escrever sobre a técnica.
Com efeito, os riscos não eram poucos. Ao perguntar a Freud quando o anunciado trabalho sobre o método ficaria pronto, Ernest Jones emenda prontamente: “deve haver muita gente esperando avidamente, tanto amigos como inimigos”.

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