Beatriz Resende – Lima Barreto E O Rio De Janeiro Em Fragmentos

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Sobre Lima Barreto cronista, poucos estudos avançaram tanto quanto este Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos, de Beatriz Resende.
Lendo-o, o leitor interessado na obra desse libertário itinerante que o destino apagou sob a barbárie dos trópicos, tem, diante de si, o retrato inédito de um narrador moldado nas ruas pela visão dilacerada dos que não têm voz.
Talvez por isso, no centro da cena que o ensaio ilumina, sejam tantos os figurantes e tão fracionados os elos entre o marginal e a metrópole, cuja modernidade a cidadania testava em suas primeiras trincheiras. Através destas, mais do que o escritor empurrado pelos conflitos que se agravavam no cotidiano das classes subalternas, é a mobilidade do cronista que Beatriz Resende fotografa como um documento de verdade entre a ficção e a história, rompendo com a limitação dos gêneros e inaugurando um espaço de investigação livre sobre a realidade do país.
O dado novo em sua leitura é que não se trata mais de uma retomada da trajetória de Lima Barreto a partir de um mero olhar contrastivo, interessado apenas no perfil literário ou na personalidade intelectual do autor, tantas vezes revisitados pelos seus críticos. O Lima Barreto que este estudo desvenda é o cronista tangido pelo povo no desespero de seu cotidiano, o jornalista que faz a crítica da imprensa e recupera, nos múltiplos registros de texto, o relato vivo da cidadania ameaçada, num Rio de Janeiro tumultuado com a presença cada vez maior dos pobres e desprotegidos.
No curso do confronto aberto pelo desemprego, pela ameaça da imigração que fazia aumentar a massa circulante numa época de endividamento, de sublevações e de grandes reformas (lembremos o Encilhamento, o Bota-Abaixo de Pereira Passos, o Levante da Armada, a Revolta da Vacina), o foco que o ensaio persegue é o do exílio de Lima Barreto naquele “mar de analfabetos” visto pelas elites através do monóculo cívico de Olavo Bilac e recortado em dois tempos distintos – o tempo da truculência institucional da ordem em crise e o tempo da solidariedade dispersa dos figurantes anônimos que traçavam nas ruas um novo mapa da cidade.

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