A relação entre arte e psicanálise – e mais particularmente ainda -, entre arte contemporânea e psicanálise merecia há tempos um livro à altura de sua relevância e densidade. Talvez ele ainda não tivesse sido escrito pelas inúmeras dificuldades que comporta: exige um autor que conheça bem ambos os campos e tenha erudição e estilo suficientes para apresentá-los e relacioná-los de modo ao mesmo tempo rigoroso e convidativo à leitura, isto é, sem ser maçante ou hermético.
O Avesso Do Imaginário consegue essa proeza ao apresentar um tema árduo a um leitor que não precisa necessariamente ser especialista em um ou outro desses terrenos. E faz isso construindo um diálogo de alto nível com alguns dos maiores expoentes da filosofia, da psicanálise e da arte. Tarefa para poucos, muito poucos, e que só podemos festejar que a autora não tenha recuado diante dela.
A composição múltipla da obra, dividida em quatro partes de três capítulos cada (com exceção da última parte, composta por quatro capítulos), não deixa de sobressair uma nítida linha de força que conduz à elaboração do texto.
Os diversos ensaios de O Avesso Do Imaginário, ao mesmo tempo que dialogam entre si, também constituem unidades temáticas que mereceriam ser exploradas com toda singularidade que exigem: o trabalho de um artista específico, a operação com algum termo/conceito da teoria psicanalítica etc. Nessa polifonia, a linha argumentativa comum concerne à subversão dos regimes ou sistemas de representação operada simultaneamente pela arte e pela psicanálise.
É por esse fio condutor – enunciado no título mesmo do trabalho O Avesso Do Imaginário – que os campos em enlace merecem e precisam ser adjetivados. Pois não se trata de uma arte genérica que está em causa, nem de uma psicanálise qualquer, pois nem toda psicanálise é subversiva. É da arte contemporânea e da psicanálise de herança freudo-lacaniana que se trata em O Avesso Do Imaginário e da subversão operada pelos autores e artistas que se inscrevem nessa tradição

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