O escritor inglês D.H. Lawrence, mundialmente conhecido por seus romances O amante de Lady Chatterley e Mulheres apaixonadas , escreveu também contos, poemas, peças de teatro, livros de viagem e ensaios
Publicado pela primeira vez em 1923, Estudos Sobre A Literatura Clássica Americana é uma pequena obra-prima que impressiona pela contundência das apreciações de Lawrence sobre os autores estudados, pela radicalidade desconcertante de sua visão do mundo, pela beleza e ousadia de seu estilo.
“Há um sentimento ‘diferente’ nos velhos clássicos americanos. É a passagem da velha psique para uma coisa nova, um deslocamento. E deslocamentos doem.” Para ele, autores como Edgar Allan Poe, Herman Melville, Nathaniel Hawthorne, Benjamin Franklin e Walt Whitman realizaram uma ruptura na história da literatura e inauguraram uma nova linguagem.
Lawrence defendia essa transformação, a desintegração da velha consciência e a criação de uma nova. Crítico da sociedade inglesa, ele analisa a literatura americana para mostrar como tudo poderia ser mais leve, sem a constante preocupação em defender ideais, tão presente nos textos da época.
Procurando expor o âmago da alma americana tal como ela se evidencia em obras como ‘Moby Dick’, ‘A letra escarlate’ e ‘A queda da Casa de Usher’. Lawrence aponta o que gosta e o que deprecia no estilo e na visão de cada um desses escritores, buscando explicitar sua própria concepção do mundo e da literatura.
Dois exemplos notáveis e complementares:
O primeiro exemplo é a análise do puritanismo no romance A Letra Escarlate (Ediouro, s/d), de Nathaniel Hawthorne. Para avaliar o modo como a agradável consciência intencional dos americanos convive com o diabólico inconsciente, Lawrence interpreta o episódio da queda no Gênesis.
No momento em que Adão e Eva querem SABER (maiúsculas do ensaísta) o que tinha acontecido entre eles, emerge o conhecimento da mente, que aprisiona e recalca instinto e intuição, ou seja, o conhecimento do sangue. No interregno entre o saber do sangue e o da mente, nasce o pecado. Ao nomear a culpa, o saber que se antecipa ao ato sexual glorifica o puritanismo. Ao diferir o sexo por ser ele fonte do pecado, o puritano deixa de problematizar os sentimentos que transitam da cintura para baixo no corpo humano.
O segundo exemplo comporta digressões líricas sobre a obra de Walt Whitman, o poeta das Folhas de Relva. É ele o primeiro a dar como superada a concepção moral que afiança estar a alma do homem “acima” da carne e ser algo “superior” a ela.
Alma e corpo se inter-relacionam e caminham a pé pela estrada. Whitman teria dito a ela: “Fique aí, ó Alma, onde é seu lugar. Fique na carne. Fique nos braços, nos beiços e na barriga. Fique nos escuros membros dos negros. Fique no corpo da prostituta.”
Se o Velho Mundo do cristianismo tinha instituído a moral da salvação, o americano Whitman introduz nova forma de moralidade, antípoda da ascese pregada por Gustave Flaubert em Tentações de Santo Antão. A nova moralidade é “uma doutrina de vida”. Renega culpa e pecado na formação da alma humana. Ao contrário de Flaubert, que se identifica ao leproso pela caridade evangélica, Whitman não se propõe como Salvador. Foi “o primeiro aborígine branco”, diz Lawrence.

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