Este é o último ato de rebeldia de Paul Gauguin.
Antes e Depois foi escrito em 1901 e 1902, quando o pintor abandona o Taiti e transfere-se para Atuana, nas Ilhas Marquesas. Esta é a última etapa de seu exílio, pois ele morre a 8 de maio de 1903, aos cinquenta e cinco anos, solitário e doente na mais tarde célebre “Casa do Prazer”, sua cabana à beira do mar.
Em 1902, com a saúde debilitada pelas sequelas da sífilis e o excesso de álcool, o pintor dedica-se ferozmente ao livro, quando não consegue mais pintar.
Num estilo anárquico, automático, muitas vezes confuso, Paul Gauguin faz, com este texto, o seu ajuste de contas. Feroz e doce, ele ataca e elogia. E entre confissões, farpas e discursos desconexos, ele termina por deixar um documento fundamental.
Aqui temos detalhadamente descrita a sua relação tumultuada com Van Gogh e especialmente o célebre episódio que culminou com Vincent cortando sua própria orelha. A história de seus exílios; Arles, Bretanha, Panamá, Papeete e as Marquesas.
Entre as dezenas de pessoas, fatos e conflitos que ele aborda temos uma verdadeira reportagem dos tempos difíceis de implantação da nova arte. Ele descreve as desavenças com os colonizadores das suas ilhas, onde sistematicamente tentava proteger os nativos da violência colonial e do aculturamento.
Gauguin para de pintar em dezembro de 1902, atormentado pelas feridas que o imobilizam. Dorme mal e, durante suas horas de insônia, escreve. Redige Antes e Depois, o livro que quer ver publicado o mais rapidamente possível e que, segundo ele, está cheio de ódio, de vingança e de coisas terríveis.
Envia os manuscritos para seu amigo André Fontainas, crítico de arte do Mercure de France, e o encarrega de mandá-lo editar: “Ao lê-lo, você compreenderá nas entrelinhas o interesse pessoal e maldoso que tenho pela publicação desse livro. Quero que ele o seja…”.

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