Lá vai o primeiro volume da coleção por mim denominada Capoeiras: Bahia, século XIX. Escolhi esta forma editorial – coleção – por dois motivos: pela preguiça de, no momento, elaborar um texto, incluindo todo o material pesquisado e disponível sobre o assunto, de uma só tacada; pela vontade de deixar em aberto a obra, a fim de incluir nos próximos volumes novos aspectos, novos documentos (caso apareçam) sobre os assuntos neste primeiro volume abordados; além das contribuições de outros autores.
Afinal, a temporada de estudos sobre esse tempo da capoeira baiana só há pouco se iniciou.
Neste primeiro volume estão incluídos comentários, opiniões e análises por mim delineados preferencialmente para alinhavar as referências que coletei sobre os capoeiras baianos no período mencionado. 0 livro foi dividido por capítulos distribuídos de acordo com a ordem cronológica das datas referenciais dos documentos que lhes deram o motivo da abordagem. Isto não impede que possam ser lidos como textos independentes. Nem isto nem as outras ligações claras e subjacentes que existem entre eles. São produtos do meu olhar vagal e de relance sobre a história dessa gente. Antecipo ao leitor uma conclusão: a minha história é vulgar, nada fica provado. Sou viciado em controvérsias, por isso, muitas vezes, ante a evidência da certeza, ainda assim preferi a dúvida.
Dos capoeiras baianos no século XIX, há pouco, só conhecíamos duas fontes: as crônicas de Manuel Querino e as de Antônio Vianna que, nas suas abordagens, atingiram as últimas décadas do século XIX. O que mais?
Algumas poucas notícias obtidas através dos relatos de estrangeiros, retiradas dos jornais, alcançadas pela via da tradição oral, e uma única gravura de Rugendas – “San Salvador” (sob suspeita) – completavam o acervo do “material” disponível para se estudar 0 universo da capoeira naquele período fertilizado por mitos, lendas e muitas suposições. Em favor da natureza dessas fontes, acrescentei o subtítulo: imaginário e documentação.
A escassez de fontes referenciais e de provas documentais foi sempre acusada de “vilã da história”, por dificultar as tentativas de penetração nesse universo. Às tentativas, sucederam-se frustrações desistências e desestímulos.
Para os estudiosos da capoeira, a tarefa começou a se configurar como árdua, e diante dos resultados presumíveis não valeria a pena tentar. Virou “tabu”.
Neste contexto, adquiriu autoridade a ideia de que teria sido inexpressivo o movimento da capoeira na vida baiana do século XIX, nela introduzido por força da migração Rio-Bahia. Para esta perspectiva, muito sugestionaram (mesmo sem o aval dos a seguir citados) as pistas e os artigos de Jair Moura, as teses de mestrado e doutorado de Luis Sergio Dias, de Carlos Eugenio Líbano Soares e de Antonio Liberac. Eles praticamente com um volume significativo de informações cobriram a vida dos capoeiras no Rio de Janeiro, no século retrasado. Pois é: até há pouco o Rio com tanta informação sobre a capoeira no século XIX e a Bahia, com quase nada …

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