Os estudos sobre música popular em sua interface com a história ocupam a pauta da pesquisa historiográfica brasileira há algum tempo. Nem por isso pode ser considerado um campo consolidado, com caminhos teóricos, temáticos e metodológicos muito delineados.
Desde que a chamada “MPB” (Música Popular Brasileira), esse gênero-instituição, se afirmou no final dos anos 1960, a música popular, particularmente a canção, tem sido objeto de pesquisa e reflexão.
Em meados dos anos 1970, começaram a surgir os primeiros trabalhos críticos e historiográficos de maior fôlego, estabelecendo as bases dos estudos da canção por algum tempo. A pesquisa de pós-graduação em História logo descobririam o tema.
A partir dos anos 1980, as primeiras teses e dissertações se avolumaram e as mais diferentes perspectivas e recortes se seguiram. Mas ainda são poucos os trabalhos reflexivos sobre essa produção que propõem balanços teóricos e temáticos sobre o que se disse em relação à música popular na historiografia brasileira. O trabalho de Silvano Baia ajuda a preencher essa lacuna.
O livro de Silvano Baia não se limita a mapear a produção historiográfica em si mesma, mas procura situá-la dentro do campo dos estudos de música popular no Brasil.
Neste sentido, os primeiros dois capítulos analisam a música popular como objeto de reflexão de memorialistas e musicólogos, chegando aos primeiros ensaios acadêmicos sobre música popular, um fenômeno dos anos 1970 e início dos anos 1980.
Demonstram o importante legado constituído por essa fortuna crítica, com destaque para três nomes que marcam a historiografia da música: José Ramos Tinhorão (sobretudo seus livros de corte mais historiográfico dos anos 1970), José Miguel Wisnik e Arnaldo Contier.
A partir de olhares ideológicos e metodológicos muito diferentes entre si, esses três autores consolidam uma perspectiva historiográfica, fazendo entrecruzar problemas estéticos, dimensões políticas e sociológicas e perspectivas históricas para elucidar o lugar da canção e da música popular na sociedade brasileira.
Esse mapeamento é fundamental para compreender as faturas e os limites da historiografia que se desenvolveu a partir dos anos 1980. Nessa análise original e instigante, Silvano sintetiza a própria formação histórica da historiografia, coisa que os historiadores nem sempre fazem para expor as bases do seu trabalho.

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