Gilberto Freyre – Tempo Morto E Outros Tempos

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Redigido em forma de diário, Tempo Morto E Outros Tempos abrange o período de formação intelectual do autor, uma espécie de autobiografia juvenil, através do registro de reações íntimas, por vezes secretas, experiências mundanas, leituras, encontros com personalidades. Obra sem similar na literatura brasileira.
“A verdade é que esse diário foi mantido durante anos como um documento estritamente íntimo, por ninguém lido ou conhecido. Relendo o que escrevi há anos, não deparo com nenhum auto-elogio ostensivamente deselegante, nem com excesso de complacência para com a minha própria pessoa.”
É dessa maneira que GilbertoFreyre, antes de iniciar propriamente o seu diário do período que vai de 1915 a 1930 – anos de infância e primeira mocidade –, refere-se a si mesmo e ao seu depoimento.
Editado pela primeira vez em 1975, Tempo Morto é, não obstante,um exemplo em tudo diverso ao que seu autor anuncia. Em primeiro lugar, longe de ser um diário infantil ou ingênuo, o livro foi evidentemente escrito e reescrito como uma autobiografia disfarçada.
Tanto que nele reconhecemos algumas “pistas” cuidadosamente deixadas por Freyre, que viria a ser, a partir da década de quarenta, um famoso intérprete do Brasil. Nas páginas do diário vemos como, já na infância, o autor manifestaria interesse pelo popular.
Por outro lado, ainda na juventude selecionaria a figura emblemática de Franz Boas como seu mentor intelectual, assim como declararia sua vocação prematura para a antropologia. Tudo parece premeditado, como uma história em que se sabe de antemão o final. O diário também não é exatamente um diário. Afinal, Gilberto Freyre sempre foi um autor de si próprio, um animador da sua própria figura.
A cada nova edição de seus livros e a cada crítica que recebia, o autor se esmerava em responder a tudo e a todos. É por isso que soa estranho Freyre conservar “esse documento íntimo” de sua pessoa tão pública.
Diários são mesmo peças literárias paradoxais. Muitas vezes, de tão privados que são, geram grandes constrangimentos, sobretudo quando publicados de forma desavisada.
Esse é o caso do antropólogo polonês Bronislaw Malinowski, cujo diário foi editado sem autorização pela viúva, logo após sua morte. O resultado foi desastroso, uma vez que, no lugar do etnógrafo romântico – sempre bem disposto ao lado dos nativos –, emergiu a imagem de um profissional bastante impaciente diante das populações que estudou

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