Na Vertigem Do Dia, volume que se segue ao Poema Sujo, centraliza-se na produção poética de Gullar como um momento de maturação do já-feito e um prenúncio de tonalidades que se acentuarão nos livros seguintes.
O título Na Vertigem Do Dia é, já de si, coerente com a trajetória de um poeta para quem a poesia que conta é a que nasce de cada espanto, de cada súbita epifania.
A vertigem está no atropelo das coisas, das personagens inspiradoras, dos ritmos metropolitanos, dos fatos incontroláveis, da memória, dos valores em combate dentro do sujeito, e seduz pela vida que expande e pela forma que de seu caos reclama ao poeta.
A este importa que continuem ativos os “barulhos”, as “muitas vozes”, a emergência da vida que se dá “em alguma parte alguma” — esse lugar poético onde definido e a definir se encontram.
Na Vertigem Do Dia atualiza e expande procedimentos do Poema Sujo, por um lado, e não deixa de frequentar certas obsessões que já se marcavam em Dentro Da Noite Veloz. Os procedimentos dizem respeito àquela multiplicação de percepções do mundo regida pela simultaneidade e pela inclusão de uma coisa em outra; as obsessões recuperam um critério político rigoroso, pelo qual o universo social se denuncia em suas fraturas.
Dito de outro modo: como numa encruzilhada, os poemas de Na Vertigem Do Dia dispõem-se em duas vertentes básicas, que tanto podem se contrapor como permear-se, disputando a predominância do caráter mais declaratório ou mais propriamente lírico da linguagem.
Será esse, a meu ver, o embate principal que ao longo da vida trava o poeta consigo mesmo e do qual é uma expressão privilegiada, digno mesmo de ser visto como chave geral da poética gullariana, o poema “Traduzir-se”.
Sofrendo a divisão que se opera entre a necessidade da resistência política à opressão das ditaduras militares (Gullar conheceu por dentro também a do Chile e a da Argentina) e o reconhecimento das pulsões pessoais, a poesia se compõe no arco da difícil conciliação entre o gesto revolucionário e o espelho lírico.
Trata-se, muito concretamente, de encontrar o poeta o alcance de seu gesto, como promete já no título o poema “Minha medida”, onde aliás se define o espaço do “desmedido”, aberto para um crepúsculo de Buenos Aires, para a Estrada de Ferro Central do Brasil, para onde se encontra “o povo, cara,/ que numa das mãos sustenta a festa/ e na outra/ uma bomba de tempo”.

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