O Imoralista é um dos livros mais ousados de André Gide. A história do jovem casado que renova o gosto da vida ao conhecer um belo adolescente árabe, é libelo contra a hipocrisia do mundo burguês e denuncia corajosamente os obstáculos à liberdade do homem.
É com O Imoralista que Gide melhor justifica as palavras que o definiram para Jean-Paul Sartre: “Ele nos ensinou, ou lembrou, que tudo podia ser dito — essa a sua audácia —, mas segundo certas regras do bem-dizer — essa a sua prudência.”
O Gide imoralista tem 33 anos. Num estilo claro e esmerado, ergue a voz contra os preconceitos, protesta contra tudo o que mascara e impede a consumação da liberdade do homem. Recorrendo a um episódio autobiográfico — a viagem à Argélia nos idos de 1893, em que adoeceu —, ele narra o drama de um jovem casado, egresso de uma educação rígida, para quem a saúde e o gosto de viver são encontrados nos braços de um adolescente árabe, em meio a uma África selvagem.
O conflito entre Eros e Tanatos, que é o cerne de O Imoralista, nem por isso deixa de motivar um cântico ao mundo das cores, dos aromas, da embriaguez sensual, um cântico, enfim, ao corpo finalmente encontrado.
Ex-simpatizante do comunismo e influência importante no pensamento de Malraux, Camus e Sartre, o humanista Gide tornou esse livro indispensável ao leitor de Os frutos da terra e Se o grão não morre, ambos execrados pelos patrulheiros da boa moral.
Gide, “contemporâneo essencial”, no entender de André Malraux, mereceu de Sartre as palavras que talvez melhor sintetizem o significado de sua obra: “Nele equilibram-se a lei protestante e o não-conformismo do homossexual, o individualismo orgulhoso do grande burguês e o gosto puritano dos limites estabelecidos pela sociedade (…)”.
Em 1902, O Imoralista obtém maior sucesso mas o autor, rapidamente sasociado pela crítica ao personagem Michel, sente-se incompreendido. Segundo ele, Michel não passa de uma virtualização dele próprio, de que ele se purga escrevendo.

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