Espanha. Julho de 1936. Irrompe a Guerra Civil. Em Toledo, na Academia Militar do Alcazar, os alunos estavam em férias. Cerca de 1.800 nacionalistas (incluindo 600 mulheres e crianças) buscam refúgio no Alcazar, liderados por um obscuro coronel: José Moscardó.
Tinha 60 anos, homem acostumado à paz, amante do futebol e dos cavalos. Seu apelido: “Gigante Balofo”. Vaidoso, pouco inteligente, aquilo de que mais gostava no Exército eram as paradas e os uniformes de gala.
O fracasso era um velho conhecido seu. Sempre fora ignorado, passara desapercebido. Sua mais importante missão até aquela data: comandar as cerimônias de enterro de um tenente. Quando estourou a Guerra Civil preparava-se para acompanhar a delegação de seu país que iria concorrer às Olimpíadas de Berlim. Mas teve de ficar e tornar-se herói.
Durante dez dramáticas semanas, comandado pelo Coronel Moscardó, o Alcazar resistiu, vitoriosamente, a todos os ataques. Armados apenas com rifles e metralhadoras, combateram aviões, tanques, morteiros, minas e petardos. Eram mil e oitocentos.
Os sitiantes, entre sete e dez mil. Dez mil granadas e quinhentas bombas choveram sobre o Alcazar, que ruía, se despedaçava, mas não se entregava. E não se entregou até a libertação final em setembro de 1936.
O Cerco Do Alcazar De Toledo conta a história de um punhado admirável de seres humanos. Narra também a história de um “milagre militar”. Em todos os cercos da História, havia quilômetros entre sitiantes e sitiados. No do Alcazar de Toledo, a distância era de metros.
Uma pausa no tiroteio e ouviam-se as conversas no campo inimigo. A Guerra Civil simplificara tudo: o homem ali adiante não era outro espanhol, um concidadão, ou um vizinho; era, apenas, um inimigo. Nas ruas, crianças brincavam com cartuchos vazios (trecho do diário encontrado de uma menina: “Hoje brincamos no telhado.
Tive medo quando o teto caiu.”) No Alcazar, a água e a eletricidade foram logo cortadas. Cavalos e mulas, os pratos na ração diária dos sitiados, os mortos, a princípio, eram enterrados no picadeiro; nas últimas semanas eram simplesmente, empilhados nos armários do vestiário da piscina.
Um soldado armado de rifle travou duelo com um canhão de 75 mm. Debaixo do bombardeio incessante da artilharia e dos avises, quase 60% dos sitiados morreu ou foi ferido. Duas crianças nasceram – uma delas literalmente expelida do ventre materno durante a explosão de uma mina.
Como fundo deste impressionante livro de violência, heroísmo e sangue, o leitor encontra um retrato da Espanha daqueles dias. No verão, em Madri, um caminhão de lixo transporta cadáveres (um quadro familiar).
Numa rua, a imagem em tamanho natural de São Francisco, apoiada no banco traseiro de um carro, tem as mãos serradas, um rifle ao ombro e uma nota cravada no peito: “Él está con nosotros”. Em letras vermelhas. O vermelho era o sangue de um padre.

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