Os Moedeiros Falsos: “Romance de um romance que se escreve”, como diria o protagonista. Com estilo notoriamente refinado e inovações que marcaram época, Gide prescinde da cronologia e estrutura narrativa tradicionais.
Para tanto, Gide concebe um herói, o escritor Edouard, que lhe é muito próximo, e o contrapõe a Bernard Profitendieu, que a seu jeito é igualmente um personagem-modelo.
Os Moedeiros Falsos não são, para Gide, apenas os jovens que escoam dinheiro fraudulento, mas os falsários no espírito e na letra, todos os que vivem na mentira de sentimentos falsos.
Prêmio Nobel de 1947, considerado “o mais moderno dos clássicos”, André Gide (1869-1951) cria em Os Moedeiros Falsos — aos cinquenta e seis anos, idade da maturidade para um escritor — seu “romance da adolescência perversa”.
Longo diálogo de Gide com seus personagens, simultâneo ao processo de criação do romance, é assim que ele aos poucos vai engendrando a atmosfera caótica em que se dá a maturação da tríade central: Bernard, Olivier e Édouard.
Bernard, o filho que deixa o lar em busca de identidade; Olivier, seu grande amigo, intelectual como ele, mas sempre no limiar entre a vaidade e a insegurança. Tio de Olivier, algo mais velho que os dois, Édouard fecha o núcleo que norteará o leitor em meio ao sistema caleidoscópico e polifônico da história — ele também projeta escrever um romance chamado Os Moedeiros Falsos.
A semelhança entre o diário de Édouard e muitos trechos do Diário de Gide insinua — quem saberá? — uma das pontas do novelo estilístico gideano, a mise en abyme, o livro dentro do livro dentro do livro…
A certo ponto do “Diário de Édouard”, no livro Os Moedeiros Falsos o personagem anota: “Se quiserem, esse caderno contém a crítica de meu romance; ou melhor, do romance em geral.
Imaginem o interesse que teria para nós semelhante caderno mantido por Dickens ou Balzac; se tivéssemos o diário de A educação sentimental ou dos Irmãos Karamazov! A história da obra, de sua gestação!
Seria arrebatador… mais interessante que a própria obra.” Palavras que emergem inevitavelmente do interior do romance para epigrafar Os Moedeiros Falsos no imaginário dos admiradores de Gide.

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