Tão antiga quanto o Brasil, a corrupção está longe de ser um fenômeno exclusivo da atualidade. Desde o período colonial, teólogos e moralistas dedicaram-se a refletir sobre suas terríveis consequências para o governo dos povos. Como então se praticavam atos de corrupção?
A que artifícios recorriam as autoridades coloniais para roubar os cofres régios e se enriquecer ilicitamente? Diante da roubalheira – tretas e manhas, como se dizia na época –, como reagiam os vassalos que aqui viviam? E, afinal, o que se entendia por corrupção?
São essas questões que Corrupção E Poder No Brasil, de Adriana Romeiro, busca responder. A partir de uma extensa pesquisa em arquivos históricos, a autora nos proporciona um mergulho em nosso passado para revelar as raízes desse mal que ainda persiste.
Há mais de cinco séculos a corrupção tem atraído a atenção dos que refletiram sobre a natureza dos valores políticos presentes no mundo colonial. Ainda em 1627, Frei Vicente do Salvador lamentava que “nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular”.
Não era esse, afinal, um dos traços que caracterizavam uma sociedade corrompida, segundo a cultura política da época, uma vez que nas verdadeiras repúblicas o bem comum deve ser posto à frente do bem particular?
Muito pouco sabemos a respeito da história da corrupção entre nós, no período que se estende do século XVI a fins do século XVIII. Ao contrário, porém, da opinião dominante, essa não é uma história linear que desembocaria no presente, como se a corrupção fosse um objeto imutável ao longo do tempo, cabendo ao historiador simplesmente a tarefa de capturá-la ali, em estado bruto.
Supor a existência dessa linha de continuidade nos impede de entender o passado como ele realmente é – uma terra estrangeira na qual devemos adentrar com muita cautela. De fato, aquilo que homens e mulheres entendiam por corrupção, na Época Moderna, tem sentidos diversos – e muito mais amplos – daqueles que hoje emprestamos a essa palavra.
Por trás da mesma terminologia, escondem-se universos culturais tão distintos que as aproximações muito imediatas parecem forçadas ou descabidas, e é precisamente essa imensa distância que o historiador tem de superar para reconstituir o conteúdo semântico dos conceitos e dos seus usos no passado.
Uma vez elidida a ideia da corrupção como categoria universal, aplicável a toda e qualquer sociedade, cabe então indagar sobre a operacionalidade desse conceito para os estudos históricos. Afinal, ele seria válido ou relevante como objeto de investigação?

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