Para o teatro atual, torna-se cada vez mais difícil encontrar um assunto que tenha relevância por sua originalidade. No entanto, o universo artístico de Tadeusz Kantor é ainda hoje um vasto campo de investigação e, mesmo que muito já se tenha dito ao seu respeito e sobre seu trabalho, ainda é muito pouco diante da potência criadora do seu teatro. As possibilidades de jogo entre os homens, objetos e bonecos são elementos de singular importância, pois abrem as portas para outro universo situado em um nível de espaço/tempo distinto da lógica cotidiana. Um mundo desconhecido no qual as leis da lógica formal não podem ser aplicadas.
O teatro de Tadeusz Kantor é uma forma de Gesamtkunstwerk, uma obra de arte total, e nem sempre é fácil alcançar os verdadeiros desígnios que inspiraram o seu trabalho. Nele, encontram-se variadas formas de expressão artística, dentre as quais o confronto entre o humano e o inanimado.
Em uma leitura superficial, sobressai a impressão de um interesse obsessivo pela morte, pelos manequins e objetos – impressão de que o humano pouco importa. Isso não é verdadeiro. Kantor não é obcecado pela morte, ele apenas manipula os seus signos em função da criação artística. Entretanto, o ser humano deve ter a consciência da sua condição de efemeridade, degradação e finitude, pois, no final, o inanimado persevera e ao homem restará apenas a arte como realização de eternidade, porque, para ele, arte é sinônimo de eternidade. A arte e o homem são as suas maiores motivações.
A arte de Tadeusz Kantor é um universo em eterna expansão, rico em conteúdo e em realizações de imprescindíveis importâncias para o teatro no século XX e para a própria história do teatro universal. Um dos aspectos mais significativos desse universo polissêmico, que se distende a todo instante, refere-se à importância atribuída ao objeto.
Em se tratando do objeto, na linguagem, coexistem frequentemente dois termos que se sobrepõem a uma mesma realidade: de um lado aquela de “acessório”; do outro, de “objeto teatral”. No plano lexical, o termo “acessório” (empregado como adjetivo) é antônimo de essencial, ou seja: é dado a ele um aspecto secundário. É sem dúvida a razão pela qual, em um momento dado, à ordem de uma mudança de perspectiva na arte do espetáculo, como comentam Gourgaud e Verdeil, se efetuou a passagem de uma palavra à outra.

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