A onda de liberalização que varreu os mercados nas décadas de 1980 e 1990 afetou as maneiras como os governos gerenciam as suas economias. Dentro desse contexto, o livro de Aldo Musacchio e Sergio G. Lazzarini analisa a ascensão de uma nova espécie de capitalismo de Estado, em que os governos interagem com os investidores privados e, muitas vezes, usam sua influência para auxiliar setores ou empresas de olho em dividendos políticos. Entre os exemplos estudados estão o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Petrobras e a Vale.

Em maio de 2007, a JBS, empresa brasileira até então relativamente desconhecida, adquiriu a Swift & Co por 1,4 bilhão de dólares e, de uma hora para a outra, tornou-se a maior processadora de carnes do mundo. Dois anos depois, em setembro de 2009, a JBS fez outra manobra surpreendente ao adquirir a Pilgrim’s Pride, tradicional processadora de carnes americana, por 2,8 bilhões de dólares. Onde uma empresa brasileira mais ou menos desconhecida teria obtido os fundos necessários para financiar essas aquisições? A resposta é simples. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social — empresa pública federal brasileira, conhecida como BNDES — escolheu a JBS como “campeã nacional” e concedeu-lhe financiamento para tornar-se ator dominante no mercado global de carne bovina e de frango. Em consequência do investimento de 4 bilhões de dólares na JBS, o BNDES acabou controlando 30,4% da composição acionária da empresa, tornando-se o maior acionista minoritário da Swift e da Pilgrim’s Pride. Essas transações, como muitas outras conduzidas por governos e bancos de desenvolvimento em todo o mundo, suscitam questões interessantes. Os governos devem usar bancos de desenvolvimento, como o BNDES, para apoiar empresas privadas? Os governos devem apoiar empresas privadas, tornando-se acionistas minoritários? Quais são as implicações desses investimentos para as empresas e para os países?
Em julho de 2010, enquanto a história da JBS se desenrolava no Brasil, um consórcio de bancos de investimento no outro lado do mundo lançava a oferta pública inicial (IPO) do Agricultural Bank of China (ABC) nas Bolsas de Valores de Xangai e de Hong Kong. Tradicionalmente, o ABC sempre atuara como “banco político”, ou seja, instituição financeira que emprestava de acordo com os interesses dos líderes do Partido Comunista chinês. Consequentemente, em 2008, mais de 25% de seus empréstimos eram considerados de liquidação duvidosa. Para consertar o ABC antes do IPO, o governo socorreu a instituição financeira, limpou seu balanço patrimonial e reformulou seus processos de governança.
O interesse dos investidores foi enorme. Tratava-se do maior IPO do mundo na época. Levantou quase 22 bilhões de dólares em ações — 15% do capital da empresa — e, em dois meses, o valor das ações aumentou em quase 30% em relação ao preço de emissão. Não estava claro, entretanto, se os investidores que compraram as ações sabiam onde estavam entrando. Eles estariam mal orientados? O governo chinês merecia confiança como investidor majoritário?
Em ambos os casos, os investidores se defrontavam com algo que era, sem dúvida, capitalismo de Estado, mas não se podia negar que não era o mesmo capitalismo de Estado com que estavam acostumados. Neste livro, estudamos a ascensão dessas novas formas, em que o Estado trabalha de mãos dadas com os investidores privados em novos arranjos de governança. Definimos capitalismo de Estado como a influência difusa do governo na economia, seja mediante participação acionária minoritária ou majoritária nas empresas, seja por meio do fornecimento de crédito subsidiado e/ou de outros privilégios a negócios privados. As novas variedades de capitalismo de Estado diferem dos modelos mais tradicionais, em que os governos são proprietários e gestores de empresas estatais (SOES), como extensões da burocracia pública. Denominamos esse modelo tradicional Leviatã como empreendedor.

   

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