O Ensaio autobiográfico foi pensado inicialmente para ser uma breve introdução à edição norte-americana de The Aleph and other stories. Ditado em inglês por Borges a seu colaborador e tradutor Norman Thomas di Giovanni nos primeiros meses de 1970, saiu primeiro na conhecida revista The New Yorker em setembro do mesmo ano, o que certamente contribuiu para a divulgação de seu nome entre o público de língua inglesa.
Até então, sua fama estava quase restrita ao público universitário, graças a cursos e palestras que dera nos Estados Unidos durante a década de 1960.
Neste texto, um dos mais longos de um autor conhecido pela concisão e frugalidade, Borges fala de seus ancestrais paternos e maternos, de sua infância quase isolada do mundo, de suas experiências ruins na escola e daquilo que ele mesmo chama de “evento principal” de sua vida: a grande biblioteca de seu pai, da qual ele acredita “nunca ter saído”.
A partir dessas primeiras leituras, quase todas em inglês, ele traça a autobiografia literária e intelectual que compõe o cerne do livro. São informações preciosas para compreender a formação e a carreira de um dos escritores mais singulares do século XX.
Há também algumas pitadas de política (não tão controvertidas quanto as que marcariam os últimos anos de sua vida), onde transparece seu ódio de Perón (“Em 1946 subiu ao poder um presidente cujo nome não quero lembrar”), que o teria “promovido” de bibliotecário a inspetor de aves e coelhos nos mercados municipais.
E em suas páginas de estilo límpido, Borges faz generosas menções a grandes amigos, como Macedonio Fernández e seu parceiro em algumas obras, Adolfo Bioy Casares. Mas não faz nenhuma referência a mulheres ou à sua vida amorosa.
Quase por acaso, ficamos sabendo que está casado. Curiosamente, o Ensaio autobiográfico foi ditado no período em que estava se separando da esposa (a união durou menos de três anos) e se apaixonando novamente. Talvez venha daí a surpreendente confissão pessoal do último período do livro: “Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás.
Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado”. Estava com 71 anos.

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