João Guimarães Rosa – Antes Das Primeiras Estórias

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Entre o autor e o seu texto existem caminhos, existem tempos. O caminho que separava Rosa do texto rosiano foi o da poesia. Os tempos foram os do Sertão. João Guimarães Rosa trilhou o caminho da poesia para poder sair de todos os existentes caminhos. Os tempos do sertão fizeram com que ele escapasse do tempo. Porque esse sertão, construído com poesia, não era da ordem da geografia.
Cada escritor procura, nessa ausência de lugar, o seu universo único. Essa procura faz-se para além daquilo que ele próprio pode entender. Porque essa criação se furta ao território da racionalidade. A maior parte das vezes, os escritores escrevem exatamente porque não sabem. E quando sabem eles escrevem para deixarem de saber.
Certa vez, José Saramago me confessou que, já depois de muito livro escrito, ele se encontrou numa espécie de encruzilhada existencial no que respeita à adoção de um estilo que, sendo inovador, fosse a marca da sua individualidade. Para definir essa hesitação, Saramago fez uso do célebre verso drummondiano “e agora José?”. Por muito que explicasse Saramago sabia que não dava nenhuma explicação. Na verdade, o modo de operar de cada escritor pertence ao domínio que está para além daquilo que ele pode racionalizar.
Tal como aconteceu com Rosa, não parece haver nos primeiros textos de Saramago algo que faça adivinhar o estilo já maduro e que, depois, ficou consagrado como marca pessoal do autor. E, no entanto, já há qualquer coisa nas primeiras criações que indiciam uma inquietação, e atuam como a forja do que seria não exatamente um “estilo” mas um idioma particular. O edifício que daí resulta é uma escrita que se deixa apropriar pela oralidade, uma escrita plural que se deixa inundar pela Vida. Uma escrita que não pode ser apenas lida. Mas precisa ser escutada. Porque ela é feita de vozes, de margens, de veredas.

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