As antologias de contos foram companheiras de viagem constantes na recepção da literatura russa. Algumas, lançadas em francês, inglês ou alemão nas primeiras décadas do século XX, até hoje são reeditadas.
Em geral, elas foram construídas a partir do eixo “A dama de espadas” — “O capote” — um conto sentimental de Dostoiévski — um conto popular de Tolstói — um ou dois Tchekhov e um ou dois Górki — e os “novos” russos em voga, como Kuprin e Andrêiev, ou uma variante disso (“O chefe da estação” — “O nariz” etc.).
A partir de certo momento, começaram a surgir as antologias de contos soviéticos, reunidos em volumes específicos ou em um mesmo pacote com os clássicos.
Escolher publicar os “antigos”, já classificados e compendiados, lado a lado com os frutos do experimento soviético, sugerindo uma solução de continuidade, ou então separá-los em antologias distintas deve ter constituído um verdadeiro dilema para os organizadores, que ia além do grau de arbitrariedade presente em toda coletânea.
Quarenta autores, quarenta contos, duzentos anos da melhor prosa russa reunida em um único volume.
Organizada por Bruno Barretto Gomide, professor da Universidade de São Paulo, esta antologia – a primeira no país inteiramente traduzida do russo e composta quase só de obras inéditas em português – apresenta ao leitor um rico panorama da literatura russa ao longo da história, iniciando-se em fins do século XVIII, com Nikolai Karamzin, e chegando até nossos dias, com Serguei Dovlátov, Liudmila Petruchévskaia, Tatiana Tolstaia e Vladímir Sorókin.
Entre esses dois extremos, estão presentes todos os grandes nomes, como Púchkin, Gógol, Dostoiévski, Turguêniev, Tchekhov, Tolstói, Górki, Pasternak, Bábel e Nabókov, mas também vários outros menos conhecidos, porém igualmente importantes – Gárchin, Odóievski, Saltikov-Schedrin, Katáiev, Grin, Chalámov, Kharms, Platónov -, alguns deles nunca antes publicados no Brasil.
Para além dos grandiosos romances de Tolstói e Dostoiévski que, com seus debates de questões morais e existenciais, consagraram a literatura do país em todo o mundo, esta antologia vem mostrar que, na arte do conto, tanto em número como em qualidade – e abarcando uma diversidade de tons e temas -, os russos são igualmente magistrais.

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