Escrito por João do Rio, o conto Dentro da noite
faz parte de uma coletânea de contos de mesmo nome, publicada em 1910. O livro Dentro da noite tem como tema comum a perversão humana, em suas variadas e inusitadas formas, compartilhadas pelos seus personagens em requintados salões afrancesados, onde as histórias vão sendo oferecidas – como aperitivos – ao leitor. João do Rio, jornalista e escritor de profissão, nascido no centro do Rio de Janeiro, nos mostra em sua obra um retrato sombrio da Capital Federal no início do século XX, trazendo à luz relatos no mínimo perturbadores, história dessas que se ouvem quando menos se espera e quando nos damos conta já não conseguimos deixar de ouvir.
A cidade encontra-se nessa época no limiar do caos urbano, após um massivo crescimento de sua população, o incremento das ocupações irregulares, a pouca eficácia do sistema público. O “choque de ordem” feito por Pereira Passos só tem início em 1904, ou seja, estamos diante de uma cidade no ápice de um ciclo de mudanças, no processo de destruição e reconstrução. A iluminação nas ruas só começa a ser efetiva a partir de 1907, fazendo dessa época a primeira a estender a volúpia das festas noite adentro.
Porém, longe das zonas mais prestigiosas da cidade, ainda vemos um Rio entregue ao descaso, vemos os miseráveis empurrados para uma periferia desestruturada. Logo, o Rio é, sobretudo, nessa época, um misto entre o requinte da modernidade aos moldes franceses e os restos apodrecidos de uma velha metrópole que crescera desordenadamente.
Nesse cenário surgem fatos, personagens, histórias que oscilam entre esses dois mundos, que habitam seu limiar, que assustam e fascinam os demais. Dentre elas está a história de Dentro da noite uma narrativa que mostra a trajetória de criação de um monstro urbano e real, um monstro possível em qualquer cidade, à espreita de qualquer um.

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