Alguém certa vez disse numa rede social, e não faz muito tempo, que criticar a astrologia, nos dias atuais, é “chutar cachorro morto”. Essa é uma impressão, creio, bastante comum entre cientistas e jornalistas científicos: imagino que praticamente todo divulgador de ciência já cometeu pelo menos um artigo desmontando pelo menos um dos muitos aspectos – sem trocadilho – da falácia astrológica e, dando o serviço por terminado, foi cuidar de coisas mais relevantes, como a fobia contra os transgênicos ou a negação da mudança climática.
O problema, no entanto, é que, quando o assunto é astrologia, o serviço nunca está realmente terminado. Cícero (106 AEC-46 AEC) já havia exposto a prática ao ridículo ainda nos tempos da República Romana, e no século XVI uma bula papal chegou a ser escrita condenando-a. A despeito disso, horóscopos continuam a povoar jornais e revistas cada vez mais claudicantes, mais ou menos como a orquestra a tocar no Titanic enquanto os passageiros se estapeavam pelos botes salva-vidas. O jornal da sua cidade pode não ter uma página de ciência, ou nem mesmo uma seção de quadrinhos, mas certamente tem coluna de horóscopo. E esses horóscopos são apenas a ponta do iceberg.
Mas, afinal, o que é Astrologia? Há tantas linhas, versões e escolas, sideral ou tropical, chinesa ou indiana, uraniana ou clássica, que é tentador usar uma definição operacional: astrologia é o que os astrólogos fazem. Mas isso não ajuda muito, então podemos tentar algo assim: trata-se da crença de que a posição aparente no céu dos planetas, da Lua e do Sol no momento do nascimento pode ser usada para determinar as características gerais da personalidade de uma pessoa, tendências de temperamento e de comportamento, e para indicar as principais dificuldades que a pessoa provavelmente encontrará em sua vida.
Essa crença representa o que costumo chamar de “superstição socialmente sancionada”, no sentido de que não costuma prejudicar a imagem dos aderentes entre os extratos sociais que se supõem mais “esclarecidos” e “antenados”. Muito pelo contrário: uma pitada de astrologia, estrategicamente posicionada na conversa, pode até aumentar seu charme pessoal em meio a amplos setores da assim chamada “intelligentsia”.

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