Jean-Paul Sartre – A Náusea

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Publicado originalmente em 1938, A Náusea é o primeiro romance de Sartre. Nele estão presentes, de forma ficcional, todos os princípios do existencialismo que seriam mais tarde postulados em “O Ser e o Nada”, principal obra filosófica do autor. Escrito sob a forma de diário íntimo, o autor constrói seu romance filosófico a partir dos sentimentos e da observação de ações banais de Antoine Roquentin, o protagonista, que, ao perambular por uma cidade desconhecida, é confrontado com o absurdo da condição humana.

O melhor seria escrever os acontecimentos dia a dia. Fazer um diário para os considerar com clareza. Não deixar escapar as diferenças de pormenor, os factos miúdos, mesmo quando parecem insignificantes, e sobretudo ordená-los. Tenho de dizer como é que vejo esta mesa, a rua, as pessoas, a minha bolsa de tabaco, visto que foi isso que mudou. Tenho de determinar exatamente a extensão e a natureza dessa mudança.
Por exemplo, tenho aqui uma caixa de cartolina que contém o meu frasco de tinta. Devia tentar dizer como é que a via antes e como é que agora a… * Pois bem! É um paralelepípedo reto, sobressai dum fundo… Que tolice! Não há nada a dizer dela. É isto que é preciso evitar; é preciso não achar estranho o que não tem estranheza nenhuma. É este o perigo, creio eu, quando se faz um diário: exagera-se tudo, espia-se de mais, excede-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso, dum momento para o outro – e justamente a propósito desta caixa ou doutro objeto qualquer – sentir de novo aquela impressão de anteontem. Tenho de estar sempre pronto, senão mais uma vez ela me escaparia. É preciso não… coisa nenhuma, mas registrar cuidadosamente e com minúcias extremas tudo o que acontece.
Está claro que já não posso escrever nada com nitidez sobre aquelas histórias de sábado e de anteontem, já estou muito longe delas; tudo quanto posso dizer é que, tanto num caso como no outro, não houve nada do que geralmente se chama um acontecimento. Sábado, uns garotos estavam a atirar pedrinhas ao mar para as fazer saltar de ricochete, e pretendi atirar uma como eles. Nesse momento detive-me, deixei cair a pedra e fui-me embora. Devia ir com uns ares de transviado, com certeza, porque os garotos desataram a rir quando voltei as costas.

   

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