Filhos de uma época letrada, dominada pela leitura silenciosa, acabamos por esquecer que na origem de tudo o que se escreve está a voz. A “literatura” medieval foi sobretudo obra da voz, e não da letra. Trovadores, jograis e pregadores recitavam, contavam, gestualizavam – enfim, atuavam para um auditório.
Paul Zumthor explora aqui a complexidade da relação entre letra e voz em todo o Ocidente medieval, estendendo suas observações a algumas práticas poéticas do Extremo Oriente, da África e do Nordeste brasileiro. Síntese de minucioso estudo conduzido por décadas, esta obra tem o poder de inverter a imagem que a cultura européia faz de seu próprio passado. Aos leitores atentos ela oferece a possibilidade de uma visão renovada do presente, convidando-os a imaginar o que pode ser uma civilização de teatralidade generalizada.

No curso dos anos 50 de nosso século, vários medievalistas descobriram a existência da poesia oral. Isso deu um pouco de que falar, provocando até tempestades no copo de água dos professores. Ninguém, certamente, jamais pusera em dúvida o papel dos trovadores, menestréis, Minnesànger e outros artistas do verbo na difusão da “ literatura” medieval. Esta, aos olhos da maioria dos germanistas, destinara-se, em seu conjunto, à transmissão da boca ao ouvido; aos romanistas, especialmente os franceses, repugnava tal generalização; mas, de qualquer modo, ninguém tirava desse fato conclusões a respeito dos textos que nos foram preservados. Assim, toda uma ordem de traços relativos à poeticidade da linguagem medieval era menos negada, era simplesmente desconhecida. É a existência dessa ordem o que, no rastro dos etnógrafos, atravessada por um feliz acaso, constataram, com entusiasmo ou timidez, alguns de nossos pioneiros. Na mesma época, o grande Menéndez Pidal, tão poeta quanto erudito, publicava os dois grossos volumes de seu Romancero hispânico, traçando a história oral de um gênero poético testemunhado desde o século XIV. As estratégias constitutivas da poesia apareciam assim irredutíveis aos modelos que eram considerados até então os únicos válidos e, como por natureza, intemporais; pensava-se que as condições de seu exercício não tinham medida comum com as retóricas da escritura. Um dos primeiros, Werner Krauss, reconheceu isso… justamente a propósito do Romancero da guerra civil espanhola.

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