A crônica não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz literatura também. Textos feitos para o momento e que, pela qualidade, vão ficar para sempre. Eis o breque deste livro.
As cem crônicas e os 62 autores que transformaram um gênero, chamado ora de menor, ora de literatura de bermuda, num chorrilho interminável de grandes clássicos de referência de bons momentos em nossa língua.
Salve! Viva! o monumento de nação redigido em cada linha de Dom Casmurro e Grande Sertão: Veredas, mas preste atenção agora que Rubem Braga vai começar, assim como quem não quer nada, a sua “Aula de inglês”.
E uma crônica de fala mansa, sem aparentar pompa ou qualquer circunstância, como é típico da espécie, mas está entre os cem mais de qualquer coisa escrita neste país.
Temos o samba, a prontidão e podemos colocar a crônica entre o que Noel Rosa listou como outras bossas. Os ingleses talvez carreguem mais no sarcasmo, os franceses talvez apostem na erudição. Problema deles. A crônica brasileira tem uma cara própria, leve, bem-humorada, amorosa, com o pé na rua.
Quase 150 anos depois de instaurada nos jornais, ela apresenta uma espetacular capacidade de se reinventar e se comunicar com o leitor. Literatura é tudo aquilo que permanece. É o caso das crônicas que vêm a seguir.
Se levar a palavra ao pé da letra e destrinchar o radical grego chrono, tempo, você vai chegar à aborrecida definição que o dicionário dá para crônica: “Compilação de fatos históricos apresentados segundo a ordem de sucessão no tempo”.
Isso pode até ter acontecido, e querem alguns que a cana de Pero Vaz de Caminha foi nossa primeira matéria no gênero. No início da história que nos interessa, a crônica que surge na relação com a imprensa, os primeiros autores recebiam como missão escrever um relato dos fatos da semana. Eram os chamados “folhetins”.
Aos poucos a tarefa foi entregue a penas geniais como a de Machado de Assis, na virada para o século XX, e o gênero, sem pigarrear, sem subir à tribuna, ganhou cara própria.

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