Não consultei como devia as minhas circunstâncias e possibilidades, quando assenti no compromisso de dar prefácio ao livro do Sr. Osório Duque Estrada a respeito da abolição no Brasil. Esse trabalho, nas primícias de cuja leitura me foi dado saborear algumas horas de agradável instrução e suave revivescência de anos extintos, ainda tão próximos e já tão longínquos, merecia mais do que as honras vulgares de um breve preâmbulo, que aliás o nome do autor e o interessante aspecto da matéria bem descareciam.
O elevado ponto de vista, donde o provecto escritor a considerou e lhe escorçou o quadro, era digno de uma ainda introdução, que o acompanhasse em toda a extensão do horizonte explorado, e acentuasse, à luz da boa crítica, as linhas características dessa fase do nosso existir nacional, que mais do que todas as outras nobilita o gênio do nosso povo.
Mas, ator e parte nos sucessos dessa época, em cujas lides me embebi tão ardentemente desde 1869, quando ainda estudante, muito antes de aberta a campanha abolicionista, até depois do seu termo, nas agitações que lhe sobreviveram, não era eu quem poderia assumir, com esperanças de bom êxito, uma incumbência, no desempenho da qual se requeria a maior serenidade e a imparcialidade mais rigorosa quanto à maneira de observar e ao critério adotado em julgar homens, idéias e coisas.
Testemunha dos fatos, com a idoneidade moral para os atestar, de que a minha consciência me dá toda a segurança, isto, sim, poderia eu abalançar-me, sem receio, a ser; pois tenho a convicção de que atravessei esses contrastes, e me despedi, afinal, dessas lutas, sem liames nem queixas pessoais, conhecendo os meus correligionários, e respeitando os meus antagonistas.
Ainda assim, porém, nenhuma necessidade tinha eu, quando a tal sacrifício nenhum dever me solicitava, de ver expostos a contestação ou dúvida os meus depoimentos pela suspeita de bem ou mal afeto aos indivíduos, cujo nome, valor, ou crédito neles se achassem, porventura, envolvidos.
Se Deus me viesse a permitir, mais tarde, algum lazer, para deixar escritas as memórias de parte, ao menos, da minha vida, desses lanços dela, que, tantas vezes, tem prendido intimamente com a da nação, nenhum capítulo dessas minhas conversações com o passado me seria mais grato que o das reminiscências daquela cruzada redentora, em que a política, entre os lidadores da causa bem dita, sacudiu a poeira das misérias humanas, e se exalou às alturas da eterna verdade, intemerata no sentimento da sua pureza e intimorata na presciência do seu triunfo.
Mas não seria este o lugar nem o ensejo adequado ao primeiro ensaio de recordações, que, tendo, necessariamente, alguma coisa de pessoais, não podiam constituir o intróito mais consentâneo a uma obra impessoal de sinceridade e isenção como a do Sr. Osório Duque Estrada.

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