D. A. Carson – A Intolerância Da Tolerância

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Algumas pessoas podem achar que falar sobre a intolerância da tolerância seja um evidente contrassenso – uma contradição obscura, talvez algo tão sem sentido como falar a respeito da quentura do frio ou a escuridão do branco.
A tolerância hoje ocupa uma posição de relevo na cultura ocidental, mais ou menos como a maternidade e a torta de maçã nos Estados Unidos no início da década de 1950: considera-se indelicado questioná-la.
Sugerir, como faz o título deste livro, que essa própria tolerância pode ser, às vezes, intolerante é um meio improvável de conquistar amigos.
Para colocar essa questão de um modo levemente mais sofisticado, podemos dizer que a tolerância se tornou parte da “estrutura de plausibilidade” ocidental.
De acordo com meus conhecimentos, a expressão “estrutura de plausibilidade” foi criada pelo sociólogo Peter L. Berger. Ele usa esse termo para se referir às estruturas de pensamento aceitas por uma cultura específica de forma geral e quase inquestionável.
Um dos argumentos dele é que, em culturas fechadas e monolíticas (por exemplo, a japonesa), as estruturas de plausibilidade predominantes podem ser extremamente complexas, isto é, pode haver muitas posições entrelaçadas que são amplamente assumidas e quase nunca questionadas.
Em contrapartida, em uma cultura bastante diversificada, como a que predomina em muitas nações do mundo ocidental, as estruturas de plausibilidade são necessariamente mais restritas, pelo fato de haver menos posições sustentadas em comum.
As estruturas de plausibilidade que de fato permanecem, no entanto, tendem a ser sustentadas com mais tenacidade, quase como se as pessoas reconhecessem que, sem tais estruturas, a cultura estaria em perigo de desabar.
Estou sugerindo que tolerância, na maior parte do mundo ocidental, faz parte dessa estrutura de plausibilidade restrita, mas tão tenazmente sustentada. Vagar em praça pública e questioná-la de uma ou outra forma não é apenas quixotesco, mas também culturalmente insensível, de mau gosto e grosseiro.
Mas insisto mesmo assim, convencido de que o imperador está nu, ou, na melhor das hipóteses, vestindo apenas a roupa de baixo. A noção de tolerância está mudando e, com as novas definições, a forma da própria tolerância mudou.
Embora algumas coisas possam ser ditas a favor da definição mais recente, a triste realidade é que essa nova tolerância contemporânea é inerentemente intolerante.
Não enxerga as suas próprias falhas, pois possui uma atitude de superioridade moral; não pode ser questionada, pois se tornou parte da estrutura de plausibilidade do mundo ocidental. Pior ainda, essa nova tolerância é socialmente perigosa e, com certeza, intelectualmente debilitante. Até o bem que ela deseja realizar é feito melhor de outras maneiras.

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