Charles Baudelaire (1821-1867) é uma das personalidades mais contraditórias da história da literatura. Inovador em sua poesia e em sua abordagem da arte e da música, defensor feroz da liberdade de costumes, ele denigre o progresso e despreza o povo. Sua vida, ao mesmo tempo faustosa e miserável, dissoluta e magnífica, deplorável e deslumbrante, foi a de um pária genial.
É um estranho casal, definitivamente, que dá à luz Charles Baudelaire, em 9 de abril de 1821, no no 13 da Rue Hautefeuille, entre a Place Saint-André-des-Arts e a Rue de l’École-de-Médecine, no bairro Saint-Germain, em Paris.
Ele, Joseph-François Baudelaire, já tem sessenta anos quando esse filho vem ao mundo. Nascido numa família de agricultores champanheses, iniciara muito jovem seus estudos e, apesar de não se destacar, obtivera no colégio de Sainte-Menehould, antiga capital da Argonne, boas notas em francês, latim e grego. Depois de ser recebido no seminário de Sainte-Barbe, em Paris, frequentara cursos de filosofia na Sorbonne e pensara por um momento em abraçar a carreira eclesiástica e ser ordenado padre. Mas a vida civil logo o absorvera. Talvez ele tenha se sentido irresistivelmente atraído pelos lânguidos costumes da sociedade do século XVIII. Aquela que ainda respeitava a monarquia e a nobreza. Aquela que combinava decoro e hipocrisia. Aquela que unia urbanidade e cabotinismo, que amava as boas maneiras, as belas vestimentas, as belas-letras e as belas-artes, mas que, nos anos de 1780, não imaginava seu declínio nem a derrocada de seus valores.
E eis Joseph-François Baudelaire, em 1785, preceptor na casa do conde Antoine de Choiseul-Praslin. Ele é muito estimado. Sua discrição é apreciada. É considerado ao mesmo tempo um notável pedagogo e um perfeito fidalgo – e é recomendado sem receio às pessoas da sociedade, especialmente a Madame Helvétius, cujo salão em Auteuil sempre reuniu mentes superiores: Condillac, Thomas, d’Alembert, Diderot, d’Holbach, Condorcet, Franklin, Laplace, Voltaire, Cabanis…

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